Dupla homenagem

Cordiais saudações!

O texto a seguir foi publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 07 de julho de 2009, há quase 3 anos, portanto, com o titulo de “O Corinthians se ama, não se discute! A propósito de um filme de Mazzaropi” (eis o enlace: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3482). Nada no artigo é original. A começar pelo título, roubado de um lema dos torcedores da Roma. Na assinatura, eu dizia que “torcer é um dever de todos, uma honra de poucos”, outro motto dos tifosi da Roma.

Obviamente este texto, publicado hoje aqui, é uma dupla homenagem – ao campeoníssimo Corinthians Paulista, invicto na Libertadores de 2012, e ao centenário de Mazzaropi. 2012 é um ano de centenários importantes para isto a que se chama Brasil e que ainda não é uma nação. Luis Gonzaga na música, Jorge Amado e Nelson Rodrigues nas letras, e, no cinema, Marcel Camus, que não era brasileiro mas dirigiu Orfeu Negro, adaptação cinematográfica da peça de Vinicius de Moraes (cujo centenário será em 2013), também uma adaptação para o teatro do mito grego de Orfeu (para saber porque isto aqui ainda não é uma nação, é só prestar atenção aos centenários que serão mais lembrados, e onde – se o de Gene Kelly ou o de Luís Gonzaga).

Muito mais há para falar de Mazzaropi. Hoje, na verdade, acho o texto bastante pedante – algo que não agradaria ao homenageado… Em todo caso, não se trata de idolatrar ninguém, e não vou modificar o que já está feito. Vou somente acrescentar algumas explicações para tornar a pedantice menos indigesta.

A ideia por trás do texto é a de que talvez seja mais difícil do que desejável conciliar os juízos da crítica e os do público – e não digo “gosto”, mas “juízo”, consciente. Essa separação não é boa para ninguém, já que parece ser mais um sintoma do abismo cada vez mais largo e fundo entre a experiência da vida comum e aquilo que convencionalmente é chamado “arte”.

Uma visão crítica contemporânea muito pouco estudada em terras brasileiras é a de John Dewey. À época em que escrevi o texto, eu estava tentando traduzir Arte como experiência. Felizmente, outra pessoa o fez, e melhor do que eu o conseguiria. Neste livro (que eu considero magnífico), Dewey aplica sua imensa capacidade de destruir dualismos atacando justamente o dualismo entre arte e vida a que a nossa sociedade de consumo nos impele. Escrevi o texto imbuído de afirmações de Dewey, tais como “Toda arte faz algo com algum material físico, o corpo ou alguma coisa externa a ele, com ou sem o uso de instrumentos intervenientes, e com vistas à produção de algo visível, audível e tangível.“; ou ainda, “O artista ao trabalhar incorpora em si a atitude do espectador”. Pelas declarações de Mazzaropi transcritas no texto, o leitor poderá construir o contexto de interpretação.

John Dewey em 1934, ano de publicação de “Arte como experiência”

Mas não podemos sobrevalorizar Mazzaropi. Ainda que ele tenha conseguido fazer muita coisa que o cinema brasileiro ainda sofre para conseguir (talvez porque o cinema, aqui, raramente foi entendido comercialmente!), não podemos nos esquecer da afirmação de Paulo Emílio – o fundo de nós mesmos revelado por Mazzaropi talvez seja aquilo de grosseiro e chulo na formação da nossa quase-nação que a educação nacional, falida pela ditadura militar, sempre tentou e nunca conseguiu conter e eliminar. Certamente é isso, mas é também certa ingenuidade, certa maneira simplória de ver as coisas e não se prender a teorias e falatórios intelectualescos. Ocupante, comerciante, empresário, Mazzaropi era também ocupado: homossexual reprimido que nunca saiu do armário, fazia em seus filmes, porém, o elogio da família burguesa tradicional, como tantos outros moralistas de sua época. Não raro, apesar do conservadorismo de suas imagens e roteiros, fez também à sua maneira o elogio do perdão, da reconciliação, da tolerância e do respeito. Poucas coisas unem este país como o humor de Mazzaropi. Ainda hoje, sua penetração social é impressionante. Para o bem, para o mal, jamais além deles.

* * *

Você está em casa, fazendo alguma coisa, e o rádio está ligado. Você conversa com o locutor. Xinga. Não gosta do que ele diz, afinal, ele está acabando com o seu time do coração (nem tão injustamente, mas ele não tem esse direito, ora, onde já viu?!). Num acesso de fúria, você desfere uma martelada de arrebentar o rádio, a mesa e o que mais estiver embaixo. E desfere outra, e outra. Não acerta o rádio, que continua intacto. Por quê? Porque o rádio desviou dos golpes.

Almoço em família – você, seus pais, irmãos e um burro à mesa. E pior: o burro tem mais privilégios do que você – é mais bem tratado, a comida dele é melhor, ele recebe mais carinho. “Mas de quem são os pais, meus ou do burro?”, você se pergunta, atônito.

Você é convidado por um amigo a presenciar uma partida de futebol no estádio. Com a derrota do time da casa, as pessoas choram no estádio. Não basta: esperneiam, berram, se descabelam, brigam, quebram tudo até. Você: “Que absurdo! Tudo isso por causa … de um jogo?!?”.

O que as situações têm em comum? Tudo. São absurdas; revelam algo da realidade que talvez não seja fácil de reconhecer, mas nem por isso menos vivido. A única diferença é que as duas primeiras acontecem no filme O Corintiano (dir. Milton Amaral, produção e argumento de Amácio Mazzaropi, Brasil, 1966) e a última costuma acontecer por aí atualmente…

Mazzaropi Corinthiano. Olhando desconfiado para um Palmeirense? Clique e descubra

Filmes sobre o Sport Club Corinthians Paulista e sua torcida estão na moda ultimamente, nem todos bons, nem por isso desprezíveis (este que aqui vos escreve continua preferindo o de Mazzaropi). Logo no início de O Corintiano, há uma advertência:

Esclarecimento ao público: este filme conta uma história que não aconteceu, mas podia ter acontecido… É uma homenagem a todos os clubes de futebol do Brasil, e seus torcedores. Não há, nem houve, intenção de exaltar ou desmerecer um ou outro, e sim dar ao grande público que prestigia o esporte momentos de diversão e entretenimento. A Produtora“.

Ora, se não há intenção de “exaltar ou desmerecer um ou outro”, por que a escolha justamente da torcida mais fanática? E num momento em que o Corinthians passava pelo jejum de títulos mais longo de sua história? E no auge do tabu contra o Santos? No entanto, o filme passa longe de desmerecer a torcida corintiana. E, de maneira muito clara, não é uma mera exaltação: os exageros do torcedor-personagem quase arruínam a sua vida. Mas é inegável, o ridículo dos absurdos do barbeiro “seu” Manuel aproxima-nos dele, ou porque nos compadecemos dele – a emoção fácil sempre foi ponto forte dos filmes de Mazzaropi – ou porque vemos na tela algo que vemos todos os dias?!

A São Paulo da Garoa ao fundo…

De Mazzaropi, Paulo Emílio Salles Gomes disse: “Ele atinge o fundo arcaico da sociedade brasileira e de cada um de nós”. Odiado por uns, amado por outros, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo pelas mesmas pessoas, até hoje é difícil fazer uma avaliação justa de seus filmes.

Muito antes da Embrafilme, Mazzaropi já tinha realizado tudo aquilo que a Vera Cruz sonhara e não conseguira fazer: além de atuar, produzia, escrevia os roteiros, dirigia e distribuía os próprios filmes. Por exemplo, em 1986, o filme Um caipira em Bariloche (direção, produção e roteiro de Amácio Mazzaropi, Brasil, 1973) foi relançado nos cinemas. Foi visto por mais de 40.000 pessoas só no cine São João, em plena década da derrota do cinema e da degradação do centro de São Paulo. O que aconteceria hoje? Será que os filmes de Mazzaropi ainda teriam tanto apelo?

Duas declarações de Mazzaropi merecem ser citadas, ambas de uma entrevista à revista Veja, em 1970 (disponível em: http://www.museumazzaropi.com.br/sucesso/suc05.htm):

Veja – Você é contra o Cinema Novo?

Mazzaropi – Não, eu não tenho nada contra ele. Só acho que a gente tem que se decidir: ou faz fita para agradar os intelectuais (uma minoria que não lota uma fileira de poltronas de cinema) ou faz para o público que vai ao cinema em busca de emoções diferentes. O público é simples, ele quer rir, chorar, viver minutos de suspense. Não adianta tentar dar 

Mazzaropi e Elisa, torcedora símbolo do Corinthians: a imagem do “povo”

a ele um punhado de absurdos: no lugar da boca põe o olho, no lugar do olho põe a boca. Isso é para agradar intelectual”.

Mesmo não querendo “fazer fita para intelectuais”, o cinema despretensioso de Mazzaropi não é tão simples assim. Em O Corintiano, as cenas de nonsense, por exemplo, instauram uma ambigüidade entre real e irreal, factual e imaginário, a borrar as fronteiras que costumeiramente julgamos nítidas entre o possível e o impossível. Ou então as cenas do rito de umbanda, filmadas com um respeito pela religiosidade popular até hoje incomum (e mesmo em círculos “intelectuais”, diga-se de passagem, ainda é difícil conceder-se à umbanda, ao candomblé, aos tambores, a dignidade que o filme concedeu…).

Outra declaração:

Eu represento os personagens da vida real. Não importa se um motorista de praça, um torcedor de futebol ou um padre. É tudo gente que vive o dia-a-dia ao lado da minha platéia. Eu documento muito mais a realidade do que construo. Quando eu falo tanto na parte comercial, não quer dizer que é só com isso que eu me preocupo. Se um crítico viesse a mim fazer uma crítica construtiva, mostrar uma forma melhor de eu ajudar o público, eu aceitaria e o receberia de braços abertos. Mas em momento nenhum aceitaria que ele tentasse mudar minha forma de fazer fitas. Elas continuariam as mesmas, pois é assim que o público gosta e é assim que eu ganho dinheiro para amanhã ou depois aplicar mais na indústria brasileira do cinema“.

A ingenuidade dessa declaração ressalta. Contra ela, pode-se dizer que não há descrição empírica pura, não só porque todo enunciado sobre “dados” já está imerso em um universo semiótico pré-existente (todo enunciado sobre fatos pressupõe já critérios de avaliação ou os afirmam quando e como são usados), como também porque já pressupõe sempre uma intenção da parte de quem enuncia (no fundo, as duas coisas são uma só, ditas de maneira diferente). Portanto, podemos perguntar, é só isso mesmo, fazer rir, chorar etc.? Ou: de onde nasce essa vontade de comover? Ou: O que é que torna possível esse sucesso todo? Ou: basta-nos, hoje, fazer o que o público gosta? Inúmeras perguntas mais podem ser feitas, inúmeras respostas podem ser dadas.

Se Mazzaropi representava mesmo os personagens da vida “real”, é discutível, mas indiscutível era sua capacidade de se comunicar com seu público. E quem era seu público? Talvez essa seja mais difícil de responder…

* * *

O trailer do filme de Mazzaropi pode ser visto aqui:

O livro de Dewey foi belamente traduzido por Vera Ribeiro para a editora Martins Fontes. Uma ótima resenha do livro, informativa no melhor sentido, e escrita por uma pessoa lindíssima, que é minha querida amiga Bibi, pode ser lida aqui: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/01/03/arte-como-experiencia-de-john-dewey-por-ana-beatriz-duarte-353363.asp

Mais um recado: este que vos escreve sai de férias e volta só no fim do mês. Que o mês de julho seja proveitoso e me dê um descanso…

E por fim, é claro, chega de falar muito:

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2 pensamentos sobre “Dupla homenagem

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