A pessoa humana é um limiar

Cordiais saudações!

Andrei Rublev: os cavalos na chuva

O texto a seguir foi publicado originalmente em 23 de dezembro de 2011 no Correio da Cidadania. Republico aqui sem modificá-lo (inclusive com os votos de bom fim de ano; ainda não é fim de ano, mas desejo de boas festas são sempre bem-vindos).

Acrescento apenas algumas observações.

Emmanuel Mounier lendo sua revista Esprit

É importante lembrar que a filosofia do personalismo parece ser mais conhecida no Brasil pelos escritos do francês Emmanuel Mounier, fundador da revista Esprit  e inspirador da democracia cristã. Na obra de Mounier, o absoluto da pessoa humana é afirmado contra a destruição perpetrada pelo nazi-fascismo, um pouco como, na mesma época, Sartre defendia o existencialismo contra o mesmo inimigo. Não por acaso, Mounier escreveu sobre vários autores existencialistas (depois da guerra, como bem se sabe, Sartre se professou humanista e “existencialista ateu”. Já comentei brevemente outra ideia do mesmo escrito, no texto sobre o Hugo Cabret de Scorcese). Apesar de inspirado por valores cristãos, Mounier não pretendia fazer proselitismo de doutrina alguma, almejando, antes, algo como um ecumenismo católico em sentido etimológico, isto é, universal. A revista Esprit continua ainda hoje levando seu legado adiante, ampliando a discussão “engajada em nosso tempo”.

Mais interessa-me, no entanto, ressaltar a temporalização do espaço, ou a espacialização do tempo (chamem como quiserem), no cinema de Tarkovsky. O próprio título de seu livro já relaciona espaço e tempo de maneira estranha ao senso-comum: como assim esculpir o tempo? É isso mesmo que Tarkovsky pretende: filmar de modo a transgredir as fronteiras do espaço-tempo. É o começo das dificuldades: fixar visualmente as quatro dimensões do espaço-tempo para o referencial do observador, de modo que este o perceba como totalidade que o integra e o transcende, a uma só vez. É um lugar-comum dizer que dois observadores, situados em pontos diferentes, percebem o espaço-tempo de maneira diferente – “tudo é relativo”, costuma-se dizer sem muito se pensar. Os observadores, todavia, em geral não se percebem como participantes do mesmo continuum espaço-temporal. Essa é a dificuldade de Tarkovsky, essa a sua luta contra o senso-comum rasteiro: mostrar que todos, apesar de individuais e pontuais, estamos incluídos na mesma totalidade transcendente.

O voraz lobo tempo em Stalker

Se ele consegue ou não a vitória nessa luta, não consigo avaliar. Parece-me, sim, realizar um cinema no qual forma e conteúdo integram-se rigorosamente. Em seus filmes, Tarkovsky consegue integrar perfeitamente uma espacialidade monumental da imagem, a simultaneidade das relações exposta iconicamente na grande tela, e a linearidade sequencial do tempo, a inexorável sucessão dos acontecimentos a pesar constantemente sobre nossos ombros. Ao contrário do neo-realismo de Rossellini (já mencionado em “Filosofilmar” semana passada), não é um cinema que se faz como signo de uma parcela de realidade para remeter à totalidade do real. É justamente essa passagem, do simultâneo ao sequencial, que funda a história – a sucessão dos eventos, sequenciados e conectados, confere-lhes sentido, lógica e necessidade. Entender que as sucessões são simultâneas abole a concepção linear da história, substituindo-a por uma concepção de história como processos concomitantes, sucessivos e sobrepostos.

Tarkovsky filma mirando a transcendência. Recusando a fragmentação, almeja apresentar o espaço-tempo em sua integralidade. Não uma imagem da duração do real, mas a pr0jeção da própria duração na tela – eis o seu cinema.

Se ao observador a experiência de seus filmes propicia qualquer relação com alguma transcendência, é outra discussão (daí eu não conseguir avaliar se ele vence ou não aquela luta). Imagino o que ele faria com o 3D…

Boa leitura e até a próxima.

* * *

Aos meus amigos Cíntia e Luís, fiéis à pessoa.

Um aspecto muito impressionante a quem vê os filmes de Andrei Tarkovsky é sua lentidão. Seu estilo de planos longos assemelha-se muito a uma contemplação, e não por acaso seu livro de reflexões sobre cinema chama-se Esculpir o Tempo. Explica-se isso pelas influências teóricas talvez mais decisivas sobre ele: o personalismo cristão, mesclado com sua formação de cristão ortodoxo russo.

A principal idéia do personalismo – como todas as outras tendências filosóficas, variegado, mas com um núcleo central – é a da preeminência da pessoa sobre as necessidades materiais e as instituições coletivas que sustentam seu desenvolvimento. Assim é para Emmanuel Mounier, o principal filósofo francês do personalismo. A ênfase na pessoa humana vinha a contrariar sua dominação, seu apagamento mesmo pelos totalitarismos em voga na Europa do entre guerras: afirmar o valor da pessoa é contrariar a reificação, a burocratização, a objetificação e redução da vida humana à mera matéria sem vida e desespiritualizada – é contrariar o processo que Max Weber chamou de desencantamento do mundo, valorizando principalmente a integralidade da pessoa humana que, dentro de si, é uma universalidade própria e não apenas uma parte de um todo maior (seja ele a sociedade ou a natureza).

Tarkovsky mirando a transcendência no cinema

Tarkovsky mescla essa tese central com o cristianismo ortodoxo russo influenciado por Nikolai Berdiaev: a independência da pessoa relativamente às restrições materiais é como a semelhança com Deus na Ortodoxia, nenhuma circunstância empírica pode restringir o divino de nascer da própria materialidade das coisas terrenas.

Nikolai Berdiaev

E, para Berdiaev, a pessoa individual é uma ruptura com o todo: o maior mistério de todos não é uma categoria social, histórica ou natural, mas uma categoria ética. É o aspecto ético de todas as pessoas individuais, é uma tarefa, uma “missão”, pois indica uma dimensão incontornável da vida humana que a eleva acima do imediato e do material. Para Berdiaev, ser uma pessoa, tornar-se uma pessoa, é entrar em contato com o transcendente. Esse processo não pode ser levado a bom termo exclusivamente por um indivíduo para sua própria egolatria. Nem revolucionário, nem individualista burguês, Berdiaev proclama a necessidade individual de cada um tornar-se pessoa para os outros – trata-se de erradicar o mal de dentro para poder irradiar o bem para fora. A transcendência exige o sair de si, nenhuma pessoa é pronta, toda pessoa precisa ser feita. Assim é que entendemos como em Stalker o que parece uma obsessão psicótica particular é, na verdade, uma busca metafísica pelo outro, pela transcendência, pela criação de toda uma comunidade, um mundo, outra dimensão da vida.

Isso leva naturalmente a indagações de ordem místico-religiosa. A mescla da Ortodoxia com a filosofia personalista pode ser explicada a partir dessa junção, do transcendente com o empírico, resultando, assim, em alguma forma de panteísmo ou imanentismo: Deus está em todas as coisas.

Nascimento de Cristo, 1405, afresco de Andrei Rublev na Catedral da Anunciação, Moscou

É para representar essa visão panteísta do mundo que Tarkovsky filma como filma. Na religião ortodoxa, a contemplação da beleza da natureza aproxima as pessoas de ter uma compreensão do divino. De fato, há uma preeminência do visual na cultura russa, conforme indica o lugar central do ícone religioso como forma de expressão dessa relação entre humano e divino – este nasce visualmente das coisas terrenas. Um ícone russo não é mera imagem, mas também uma porta, uma “janela” para o mundo divino por meio da beleza. Nas igrejas Ortodoxas, essa possibilidade de transcendência é representada por uma parede de ícones, a iconóstase. Geralmente situada entre a Nave e o Altar, o qual revela ou esconde, a iconóstase separa, na igreja, o espaço sagrado e o não-sagrado, ou profano, a parede de ícones tem claro significado simbólico de limiar entre dois mundos, entre o aqui e agora da vida terrena e a possibilidade de transcender esse imediato. Esse limiar mantém o santuário invisível ao crente e é como uma grande tela, proporcionando um contato visual indireto, mediado pela imaginação do observador, com a dimensão do divino. A contemplação, pelo indivíduo, da beleza divina é, assim, incitada pelos ícones.

Nave central e iconóstase da igreja da paróquia ucraino-católica de São Josafat, em Prudentópolis, PR

Eis, então, a importância do tempo para quem vê: para conseguir enxergar a beleza do sagrado, é preciso tempo para ver através dos ícones. A beleza deles é mero auxílio para transportar a visão a outra dimensão, para transcender ao mundo do divino. Tarkovsky tenta recuperar essa sugestão com seu ritmo lento, seus longos planos e demoradas sequências por sobre objetos, coisas naturais, horizontes amplos, belas paisagens – como na sequência de Solaris (União Soviética, 1972), com a câmera posta em um automóvel que percorre uma cidade do futuro (essa sequência foi filmada em Akasaka, Tokyo). Cada detalhe visual e sonoro pode revelar a presença de vida, como se fossem índices de uma deidade que, de outra maneira, permaneceria oculta em meio à banalidade, à dureza dos fatos brutos próprios do entorno físico e social. A sensação da duração alongada ou a amplidão das paisagens como a negar o enquadramento da tela, negar a especialização e a aceleração do nosso mundo, transcender a limitação do espaço-tempo, superar as determinações do aqui-e-agora. Até mesmo sua filmografia parece contradizer o ritmo de produção industrial: nove filmes principais (sem contar documentários e produções para TV) em mais de 20 anos de carreira.

Passagem em Stalker

Assim como para Berdiaev, para Tarkovsky também as pessoas estão nesse limiar entre dois mundos. Uma concepção que retoma a cisão fundamental no ser humano afirmada pelas teorias da natureza humana do século XVII: cindido entre dois mundos, o sensível e o inteligível, o natural e o moral, o âmbito da determinação mecânica absoluta e o da liberdade possível, o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo e membro de um todo que o transcende, um duplo empírico-transcendental, para falar com Michel Foucault. De fato, o maior filósofo do século XVIII, Immanuel Kant, punha o problema ético fundamental para o ser humano nesses termos: como realizar a moralidade no mundo empírico? Como ser livre em um mundo determinado por causas mecânicas? Como escapar à prisão a nós imposta pelos objetos à nossa volta? Sua resposta confiava na capacidade humana de autodeterminação racional: o ser humano é capaz de representar para si um curso de ação que, embora irrealizado no imediato, é realizável, é possível, porque pensável, concebível, independentemente das circunstâncias limitadoras do presente imediato.

Têmpera sobre madeira de Andrei Rublev, atualmente na galeria Tretyakov, Moscou

Oambíguo divino/humano em ícone de Andrei Rublev

Se Tarkovsky aceita esse dualismo, ele não deixa de problematizá-lo. É claro que há uma nostalgia do absoluto na filosofia personalista. Desde pelo menos Agostinho, a tradição cristã afirma a necessidade de o ser humano reunir-se com o fundamento de tudo (desde o Gênesis, após a expulsão do Éden…). Mas Berdiaev assinala um tom de desilusão: a reunião com o absoluto divino só é possível pela morte, na aniquilação da vida pessoal. A nostalgia da reunião com Deus provoca, assim, uma sensação de esvaimento e náusea assombrosa (as aproximações que faço com o existencialismo não são inocentes), de dor e de sensação de impotência diante da inevitável passagem à outra dimensão, misteriosa, assombrosa e cultuada. Uma relação ambígua com o divino, que também aparece nos filmes de Tarkovsky.

Tarkovsky e a câmera

Em seus filmes, Tarkovsky lida com esse dualismo como se fosse um conflito entre nossa moderna civilização materialista e a espiritualidade da pessoa humana que justamente nega o materialismo e o imediatismo. O problema está na possibilidade de transcender a condição individual e espiritualizar a comunidade, já que, nesta, as relações intersubjetivas devem predominar, embora de fato predomine o individualismo. Este é um conflito fundamental em seus filmes. Em Nostalgia (produção ítalo-franco-soviética, 1983), um escritor russo, Andrei Gorchakov (OlegYankovsky), em viagem à Itália, luta para encontrar-se entre dois mundos, dos quais sente saudade com a mesma intensidade. Sua busca ganha um sentido quando encontra Domenico (Erland Josephson), um lunático que encontrou sua própria pessoa no isolamento e na solidão. Um ato de sacrifício que condensa o sentido da vida pela sua negação: viver isolado é como não viver, é morrer. E em seu último filme, O Sacrifício (produção sueco-franco-britânica, 1986), parece mesmo que ele busca compreender o sentido da morte e do sacrifício pessoal.

Imagem de Nostalgia, 1983

O cinema de Tarkovsky representa, de maneira poderosa e muito pessoal, uma luta que todo ser humano, na nossa sociedade de consumo (não é o consumo uma forma de estreitamento à imediatidade e ao efêmero?), da informação, das redes, tecnocrática, globalizada, pós-moderna, contemporânea – enfim, tenha o nome que tiver –, pode sentir e ver como sua: uma luta contra a redução da existência humana à materialidade e à exterioridade absolutas, uma luta contra a negação de sua pessoalidade espiritual e transcendente. Uma luta pela possibilidade de ser mais que mero existir.

Cordiais Saudações e boas festas de fim de ano.

 

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