Viver, morrer, ser lembrado

Cordiais saudações!

O texto a seguir foi publicado com o título original “Viver, morrer, ser lembrado: A falecida, a peça de Nelson Rodrigues e o filme de Leon Hirszman“, no Correio da Cidadania, em 21 de Dezembro de 2010. Trata-se de um texto por ocasião do final de ano, o leitor notará o tom.

Pouco tenho a acrescentar ao texto original. Ao final, eu apresentava as seguintes referências:

“O DVD de A falecida ainda traz outros dois filmes em curta-metragem de Leon Hirszman: “Nelson Cavaquinho” e “Partido Alto”, além de vários depoimentos nos “extras” (mais informações sobre o projeto em http://www.leonhirszman.com.br/).

Os trechos de Jean-Claude Bernadet e Carlos Augusto Calil foram impressos no bem cuidado encarte que acompanha o DVD. O livro Brasil em Tempo de Cinema ganhou nova edição em 2007, pela Companhia das Letras. O texto de Ângela Leite Lopes foi incluído na fortuna crítica do Teatro Completo de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993), volume organizado por Sábato Magaldi, que há tempos merece outra edição. Já o texto “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov“, de Walter Benjamin, pode ser encontrado no primeiro volume das obras escolhidas do autor, intitulado Magia e técnica, arte e política (São Paulo: Brasiliense, 1994, 7ª ed.).”

Uma versão do escudo de Aquiles

Ao leitor atento não escapará mais uma menção ao texto de Walter Benjamin, presença frequente neste blog. Não sei se é minha obsessão pelo texto, mas o poder de suas ideias me fascina. Além de ser belíssimo, esse escrito de Walter Benjamin sintetiza ideias importantíssimas sobre nossa época, com alcance que não consigo avaliar. Como bem nos recorda Jeanne-Marie Gagnebin, queridíssima professora e colega de Departamento (fato que para mim significa dupla honra), o tema da bela morte remonta a Aquiles, que preferia morrer gloriosamente a viver sem ser notado, uma vez que a vida sem brilho significa a morte absoluta, o apagamento na lembrança dos vivos. Narrar para não esquecer significa afirmar-se como sujeito, assim como uma teima em não desaparecer na história , ao mesmo tempo em que significa também matar para sobreviver – selecionar o que contar significa deixar esquecer algumas coisas para que outras possam sobreviver. Assim é que nossa identidade se constrói e que nos reconhecemos como sujeitos.

Assim é que a luta pelo reconhecimento e pela memória podem tornar-se redentoras e revolucionárias para aqueles que, cotidianamente, levam adiante o mundo. Certa vez, não me lembro bem de quem ou quando, ouvi ou li que para o budismo as pessoas que carregam o mundo nas costas são aquelas pessoas absolutamente anônimas, sem qualquer notoriedade, e às quais em geral não se presta atenção alguma: jardineiros, professores, pequenos comerciantes, trabalhadores comuns.

Ji Gong, monge budista das pessoas comuns: em cada um, ele é outro

Se o budismo defende isso mesmo ou não, não sei dizer. Eu sempre entendi isso de duas maneiras, não exclusivas. Se os gênios, as antenas da raça, os grandes artistas e realizadores têm algo de demente e incomum, não poderia deixar de ser diferente – as pessoas comuns é que têm de levar o mundo adiante, já que se todos fossem grandes criadores a vida não continuaria, toda ruptura e façanha que seria. A sociedade é uma máquina de reprodução, dizem certos marxistas, uma contínua reinstauração de hábitos e práticas estabelecidas. Ao mesmo tempo, se ninguém pensar o impensado, se ninguém agir para inovar, se não houver ruptura e descontinuidade, nada muda e a vida seria a mais tediosa permanência e repetição do sempre mesmo.

Nem uma coisa, nem outra. Ambas. As diferenças coexistem, simultaneamente são; se a (re)produção das identidades exige a continuidade temporal, não é porque o presente é fechado em homogeneidade, mas porque é preciso marcar, ainda que provisoriamente, certas fronteiras que permitam à vida continuar fluindo – afinal, ela fluirá de toda maneira e é melhor que o faça sem nos atropelar muito. Precisamos de alguma estabilidade para, inclusive, poder planejar algumas mudanças. O problema está em quem tem o poder de definir quais são os marcos identitários, para quem devem funcionar, quem fica dentro e quem fica fora dos padrões definidores, e o que isso significa. Em termos mais diretos: o que significa ser brasileiro, ou homem, ou mulher, ou mesmo humano? Quem estabelece os critérios – e com quais finalidades o faz – para definir quem é e quem não é? Quem pode ser? Quem jamais será?

Essa reflexão foi desenvolvida por muitos pensadores do século XX. É importante para Jean-François Lyotard e Jacques Derrida, por exemplo. Já faz parte, ainda que nos interstícios do texto, da obra de Walter Benjamin, em suas teses sobre a história, por exemplo. Contra a história centrada em mitos de personalidades, aquela sucessão linear de grandes feitos idealizados, contada do ponto de vista dos “gênios”, dos “conquistadores”, teleológica, dirigida a um gran finale ao qual seremos conduzidos por nossos líderes, vale a perspectiva das pessoas comuns e sua heroica sobrevivência de resistência à violência que lhes impõe a máquina. Afinal, qual a razão inquestionável e a priori que me obriga a marchar seguindo o líder? Será a mesma razão que impede outros de marcharem comigo?

Imagem de O Triunfo da Vontade, de 1935, de Leni Riefenstahl

A radicalidade do pensamento de Walter Benjamin pode ser vista, por exemplo, nas escolhas populares de seus próprios mitos identitários. Uma recente edição da revista de história da Biblioteca Nacional (http://www.revistadehistoria.com.br/revista/edicao/80) traz um dossiê sobre a Princesa Isabel. Uma das coisas que me chamaram a atenção foi a discussão sobre a memória deixada pela Princesa. Mesmo que tenha assinado a Lei Áurea de libertação dos escravos, a Princesa Isabel não é a preferida na lembrança da população para comemorar o 13 de maio, perdendo de longe para Zumbi dos Palmares, por exemplo. Mais que utopia e rememoração, o pensamento de Walter Benjamin vive da afirmação de outras formas de contar a história – contar a história a contrapelo, como ele mesmo afirma nas suas teses sobre a história. A história não como disciplina escolar, mas como uma narrativa de processos vividos na pele, na carne das pessoas comuns que, no fim das contas, levam a vida adiante, embora no mais das vezes não ganhem bustos ou nomes de ruas a perpetuar-lhes a memória. Talvez nem precisem disso, pois sua memória não pode ser petrificada, emplacada – ela vive continuamente na lembrança que temos de nós mesmos, como a nos re-significar a cada vez que pensamos em quem somos, re-atualizando identidades e diferenças.

Espero que o texto consiga mostrar porque considero a peça de Nelson Rodrigues e o filme de Leon Hirzsman casos memoráveis de nossa cultura. Boa leitura e até a próxima.

À Maria Hirszman

A peça A falecida, de Nelson Rodrigues, apresenta uma mulher, Zulmira, moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro, fins da década de 40, cuja obsessão pela morte traduz-se no desejo de ter um enterro luxuoso, “bonito, lindo… de penacho…”. Fica clara, na peça, a intenção de Zulmira de ser enterrada com tanta pompa de modo a dar uma lição em sua prima e vizinha Glorinha: “Quando eu morrer,” diz ela ao marido Tuninho, “Glorinha há de estar, na janela, assistindo, de camarote, o meu enterro, gozando. Ela sabe que estamos na última lona e, portanto, que meu enterro deve ser de quinta classe. Olha! Eu quero sair daqui! Nada de capelinha! Se Glorinha soubesse! Se pudesse imaginar que eu, na surdina, estou tomando as minhas providências!”.

Algum leitor há de se perguntar: “Enterro lindo? Como assim?!?”. Na peça, a razão da obsessão de Zulmira revela-se no terceiro ato: Glorinha é testemunha de uma traição de Zulmira. Em geral, as poucas análises da peça (de que este escritor tem conhecimento) vêem nisso algo de psicanálise superficial, justificada pelas posições ideológicas do autor, notório conservador e “reacionário”. Não raro lemos que, em A falecida, Nelson Rodrigues faz troça da vida suburbana carioca, chegando mesmo a ridicularizar a personagem Zulmira.

Fernanda Montenegro como Zulmira em seu primeiro papel no cinema

Já o filme A falecida, dirigido por Leon Hirszman e roteirizado por Eduardo Coutinho (Brasil, 1965), apresentaria a história de Zulmira (na bela interpretação de Fernanda Montenegro) sob outra perspectiva, a da degradação e da alienação sociais da classe média. Em vez de um olhar ridicularizante, o filme traria um olhar compassivo para com as personagens alienadas e empobrecidas do subúrbio carioca, vítimas de uma realidade social injusta.

Agora, com o lançamento do filme em DVD, no quarto volume do projeto de restauração da obra de Leon Hirszman, tomamos conhecimento de uma declaração de Fernanda Montenegro: “Acho que há uma deformação, do ponto de vista dramático, quando se vê o Nelson. Ele (Leon Hirszman) quis fazer um filme, não anti-Nelson, ele nunca falou isso, mas um filme que mostrasse o lado denso do Nelson, sem folclore”.

Propomos aqui uma interpretação que tenta harmonizar a idéia da alienação com a de uma dramaturgia rodriguiana densa e sem folclore, seguindo a nota dissonante sugerida pela grande atriz.

A interpretação aludida – que também explicaria as desavenças entre o diretor e o dramaturgo, o qual não teria gostado do filme – é confirmada por dois grandes críticos do cinema brasileiro. Diz Jean-Claude Bernadet:

A falecida, baseado em peça de Nelson Rodrigues, é a história de uma alienação. (…) A falecidapoderia ser um esplêndido retrato da vida suburbana carioca e excelente evocação do marasmo em que vive grande parte da classe média do país, em conseqüência das contradições que já vimos e do processo acelerado de proletarização em que se encontra. (…) A falecida sugeriria perfeitamente essa degradação lenta da classe média, esse resvalo para um nível de vida baixo, essa diminuição de suas possibilidades, não fosse a segunda parte do filme, em que um retrospecto dá a explicação do comportamento de Zulmira: tudo isso porque fora adúltera e apanhada em flagrante por uma vizinha. O filme então resvala para uma psicanálise de folhetim, perdendo-se todas as implicações da primeira parte. Tem-se a impressão de encontrar na primeira parte Leon Hirszman, enquanto a segunda é de Nelson Rodrigues. Nessa primeira parte, reconhece-se de fato um aspecto da temática de Hirszman – uma vida que existe em função da morte –, mas as explicações de Hirszman nunca poderiam limitar-se a um adultério” (em Brasil em tempo de cinema, livro de 1967).

De fato, o próprio diretor declarou, certa vez, ter deliberadamente mudado o enfoque da narrativa, reduzindo uma característica ênfase psicopatológica rodriguiana na construção da personagem Zulmira para apenas um motivo dentre outros, de modo a ressaltar, por exemplo, a dimensão social da “farsa trágica” (denominação presente no programa de estréia da peça em 1953).

No mesmo diapasão, afirma Carlos Augusto Calil: “Nelson Rodrigues, na peça A Falecida, escarnece de uma mulher suburbana, com vocação bovarista, que não suporta o olhar implacável e moralista de sua medíocre comunidade. Leon Hirszman tem compaixão pela personagem lânguida e não a condena. Eis aí o princípio do desentendimento entre autor e diretor” (“Leon Zona Norte”, texto do encarte do DVD).

De fato, a alienação é tema tanto na peça quanto no filme. É sintomática a fala de Tuninho: “Às vezes, eu tenho inveja de ti. Tu não te interessas por futebol, não sabes quem é Ademir, não ficas de cabeça inchada, quer dizer, não tens esses aborrecimentos… Benza-te Deus!” (escrita por Nelson, mantida quase ipsis litteris no filme). O filme, ainda assim, traz elementos que trazem a alienação ao primeiro plano: o cenário de degradação espacial dos subúrbios do Rio de Janeiro, a fotografia em preto e branco a reforçar os dias nublados e chuvosos das filmagens, a frase “no tempo em que Pelé era Ademir” inserida logo após os letreiros, no começo do filme, a própria Zulmira como alegoria da dissolução etc. E, de fato, vários testemunhos confirmam que Nelson Rodrigues não teria gostado do resultado da montagem final (nos extras do DVD, as declarações de Joffre Rodrigues e Eduardo Coutinho). Mas, independente disso, há outros pontos de contato entre as duas obras que gostaríamos de ressaltar.

Primeiro, lembremos que a morte é tema por excelência – obsessivo! – de Nelson Rodrigues. E, como bem lembrado por Ângela Leite Lopes (“As mulheres de Nelson Rodrigues”), uma vida em que se conquista uma relação com a morte não significa, necessariamente, uma vida para a morte. O que isso quer dizer?

Richard Bosman, Morte de uma femme fatale, 1982

A vida de Zulmira nada tem de especial: seu marido, Tuninho (Ivan Cândido, no filme), desempregado, só pensa em futebol e em jogar sinuca, mal se importa com ela. Ela vem a encontrar num caso extra-conjugal, com João Guimarães Pimentel (no filme, Paulo Gracindo, em grande interpretação), uma forma de escapar de sua realidade maçante.

Zulmira e o Amante

Note-se: seu amante é a única personagem com nome e sobrenome, como a indicar sua confortável situação financeira (é a única personagem que tem visibilidade social: vítima de perseguição jornalística, orgulha-se, até, de seu nome aparecer nos jornais, e Tuninho, depois, se valerá desse fato para chantageá-lo). Eis, então, que Glorinha aparece para acordar-lhe do sonho: um amante rico, e que ainda por cima gosta dela, só podia ser mesmo um sonho… Para Zulmira, vencer as limitações e as repressões de sua condição miserável passa a ser vingar-se da prima. E como não tem meios de alterar sua realidade, passa a querer morrer, mas não qualquer morte: ela fixa-se em um enterro “como nunca houve aqui” (eis a “psicanálise de folhetim” rodriguiana), daqueles para não se esquecer durante muito tempo. Afinal, o que teria Zulmira a contar, se sua vida é frustrada, empobrecida e sem perspectivas? Esquecida em vida, por que deveria ser lembrada após morrer?

Na peça, um enterro luxuoso significa superioridade e distinção social, e não só para Zulmira, mas para todos os desprestigiados e marginalizados sociais. Em passagem excluída do filme, Timbira (no filme, representado por Nelson Xavier), funcionário da funerária, declara que “o embaixador” recusou um enterro caro à própria mulher: “Pra encurtar conversa: encomendou um de oitocentos cruzeiros e olha lá! Caixão mixa! (…) E assim mesmo porque eu cantei aquela besta que só você vendo!”. Já o bicheiro não pensou duas vezes e preferiu muita ostentação no enterro da filha: “Quando disse que podia arranjar, pra filha dele, um caixão assim, assim, com alças de bronze, forro de cetim, sabe que, lá, todo mundo ficou com água na boca? (…) Pedi 20 mil cruzeiros e ele topou, imediatamente. Se eu pedisse trinta, também dava, aposto! Descobri que bicheiro é um grande sujeito! (…) Cortina pra cinco portas, crucifixo de cristal, o diabo a quatro! Tudo 35 mil cruzeiros”. É justamente esse o enterro dos sonhos de Zulmira: muito brilho, muita ostentação, muito barulho para não passar despercebido, inclusive com hinos da igreja teofilista na hora de fechar o caixão.

Nesse contexto, o tema da alienação pode ser entendido em outra clave. Em belíssimo texto, Walter Benjamin já em 1936 alertava para a expulsão da morte de nossa vida contemporânea: “Antes não havia uma só casa e quase nenhum quarto em que não tivesse morrido alguém. (…) Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar sua hora, serão depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais” (O narrador, já citado no ensaio sobre Hugo Cabret neste blog). Para Benjamin, o inesquecível aflora no momento da morte, a própria vida ganha sentido no momento da morte. Ao presenciarmos a morte de um ser humano, partilhamos a experiência de uma vulnerabilidade à qual estamos todos sujeitos, fato que faz até mesmo “um pobre-diabo” moribundo ganhar autoridade, nas palavras de Benjamin. Para ele, é dessa autoridade que nascem as narrativas: desde os mitos e a grande narrativa épica, todos os narradores sempre contaram como a experiência humana não termina com a morte individual, mas continua, transmudada. O fato da morte, de certa maneira, é negado pela lembrança perpetuada pela narrativa. Com efeito, é isso mesmo que, com um enterro nababesco, querem o bicheiro e Zulmira, ao contrário do embaixador que, é claro, não precisa disso para ser lembrado. E, das várias personagens de Nelson Rodrigues marcadas pela consciência da finitude, Zulmira talvez seja a mais escrupulosa.

Zulmira ascende sob a chuva

O enterro traduz a vontade de ascensão social de Zulmira, que ganha, no filme, contornos de transcendência. Na cena mais lírica, Zulmira parece querer ascender às nuvens e unir-se às gotas de chuva; a chuva vem lavar toda sua alma e livrá-la de todas as máculas que até o momento a confinam àquela situação depauperada; seu banho de chuva é pleno de sensualidade e êxtase.

A partir de então, a morte é inexorável. Não poderíamos, assim, entender que a experiência da doença, para ela, representa uma possibilidade de libertação a ser consumada com sua morte? Sua morte não significa, para ela própria, sua dignidade e sua permanência, muito mais que mera ascensão social por meio de um enterro luxuoso? A ascensão social seria, assim, meio, e não fim. Da mesma forma, a alienação e a vontade de morrer não são “fenômenos em si em um meio degradado” (como quer Jean-Claude Bernadet), mas – ao menos para Zulmira – um meio para uma realização maior: a transcendência absoluta, tema caríssimo a Nelson Rodrigues. Na impossibilidade da transformação total da realidade social, a morte adquire sentido duplo, simultaneamente interrupção e superação do presente imediato. A única possibilidade visada por Zulmira para sair de sua condição petrificada e mesquinha (“Eu quero sair daqui! Nada de capelinha!”), para evitar o esquecimento e a aniquilação completos, é morrer e ter um enterro diferenciado. Mais: a morte revelaria sua pureza e integridade. Ao contrário da prima, que teve câncer e perdeu um seio, Zulmira não teme ser despida publicamente depois de morta (“Eu sou a morta, que pode ser despida…”), pois seu corpo não está mutilado – ao contrário do marido, o amante não lava as mãos após tocá-la e não a chama de “fria” –, ela é capaz, seu corpo é capaz de ter, de partilhar experiências.

Gabriel von Max, O anatomista, 1869

Mas, assim como muitos outros marginalizados, empobrecidos e brutalizados, Zulmira não será lembrada pelo que desejou. Seu enterro não foi luxuoso e sua lembrança passou como a de uma “vigarista”. Assim como a de muitos marginalizados, sua morte só será lembrada pelo que não foi; como muitas mulheres, nem no momento da morte ela conseguiu vencer as imposições e a indiferença do marido. O trágico revela-se, ao fim, no choro de Tuninho no estádio; o farsesco, no seu ato de jogar dinheiro às arquibancadas.

Zulmira seria totalmente esquecida após um cortejo vulgar, não fossem dois incomuns narradores a lembrar-nos de sua existência. Nelson Rodrigues conseguiu capturar, em várias de suas peças, essa apreensão intuitiva do sentido da vida que têm as pessoas comuns que, como Zulmira, vivem violentamente alijadas de si mesmas, a todo momento, no mundo todo. Leon Hirszman veio nos lembrar de que um banho de chuva sempre pode nos trazer de volta a nós mesmos.

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2 pensamentos sobre “Viver, morrer, ser lembrado

  1. Um amigo me escreveu: “conhece a lenda dos 36 justos? Em outras versões, os lamed-vavniks desconhecem sua condição, e se uma pessoa alega ser um dos 36, essa pessoa certamente está mentindo, porque a principal virtude de um Nistarim é anavah [humildade], uma humildade tão sincera que o Nistarim nem chegaria a suspeitar de que é um dos 36 Justos. Eles não se conhecem e são pessoas comuns. Sem saber, os Lamed Wufniks são os pilares secretos do universo. Se não fosse por eles, Deus aniquilaria toda a humanidade. Sem tomar conhecimento, evitam que o mal aconteça às pessoas à sua volta. Nunca se destacam na multidão, nem perdem seu anonimato. Sem perceber, são nossos salvadores. Eles são os bodes expiatórios da humanidade. Na eventualidade de um Lamed Wufnik perceber sua importância, sua morte é certa: nenhum homem pode suportar nem 1/36 do peso do mundo.”

  2. E outro ainda: “Sobre essa sua afirmação não categórica relativa ao budismo, eu também não sei se ela procede. Sei, no entanto, que na tradição hebraica, segundo registra Gershom Sholem, não sei se em A cabala e seu simbolismo ou em A mística judaica – preciso revisitar os livros –, há sim a crença de que os homens que sustentam o mundo, como pilares do universo, são seres absolutamente anônimos e seu anonimato é a condição básica de que sejam tais sustentáculos.”

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