Mito e Cinema I

Cordiais saudações!

O texto a seguir foi originalmente publicado no Correio da Cidadania, em 30 de setembro de 2008, com o título de “Mito e Cinema III: sacralidade e natureza“. Como o título indica, é o terceiro texto de uma série, totalizando ao menos oito textos. Os outros aparecerão aqui em breve.

Após esses anos, continuo achando o filme da camela chorona belíssimo. Hoje sei que “Os camelos também choram” foi resultado do trabalho de final de curso em cinema de Byambasuren Davaa, diretora de cinema nascida na Mongólia e residente na Alemanha,  e do italiano Luigi Falorni. Não sei de outros trabalhos dos dois comercialmente conhecidos no Brasil.

A equipe em filmagem na Mongólia


Um documentário com elementos de ficção, como todos os documentários é no tanto de ficção que carrega que consegue revelar a realidade. Muitas aulas de antropologia poderiam ser substituídas por este filme. Há, obviamente, os chatos de plantão a denunciar o sentimentalismo, e talvez até uma nostalgia por uma vida impossível. Não importa: a relação entre ser humano e meio-ambiente, tal como mostrada no filme, é mesmo emocionante. Seja na relação com os camelos, seja na relação com os fios e antenas de TV, o que vemos é emoção. Mas não uma emoção que nos impede o pensamento – ao contrário, uma emoção que nos faz pensar em nós mesmos e na relação que nós mantemos com os outros entes e nosso meio-ambiente.

Os fios de eletricidade a compor a paisagem

No texto que segue, minha preocupação é enfatizar a relação religiosa entre homem e natureza, para mostrar que essa distinção não é tão nítida quanto se pensa. Obviamente, eu enfatizo a diferença e a influência é de Mircea Eliade, cuja leitura de O sagrado e o profano muito me ensinou. Mas não só: a restauração da harmonia pelo ritual (

) transforma a relação entre ser humano e mundo, e, como toda transformação, nada volta a ser como era, e tudo volta a fluir como necessário, continuando a vida. O filme talvez deixe em segundo plano a violência característica de todo ritual: a incorporação da TV à comunidade nômade significa o que exatamente? Quem é aceito como um de nós, após o ritual? Quem somos nós? Isso o filme não precisa resolver. Resta a tensão entre fluxo e permanência, que desde Heráclito e Parmênides perturba os filósofos, nos dizem os manuais de filosofia.

Parmênides, em pé, com o livro aberto, e Heráclito, sentado, escrevendo, à esquerda de Pitágoras, lendo, na Escola de Atenas, de Rafael (1511)

Espero que gostem do texto. Até a próxima.

* * *

Tu-Pã!

Um dos temas mais presentes no pensamento mítico é o da relação do ser humano com a natureza. E freqüentemente essa relação aparece indissociável da relação humana com o divino e o sagrado, já que a deidade se manifesta na forma de fenômenos naturais: o relâmpago disparado por Zeus, a cobra que tenta Eva, o trovão que grita TU-PÃ!, o fogo roubado dos deuses etc. Assim, o pensamento mítico apresenta a relação com o sagrado como o primeiro fator da vida humana, anterior à organização social em comunidades, ao trabalho técnico e até mesmo à linguagem. Para o pensamento mítico, a religiosidade é primordial e essencialmente constitutiva da natureza humana.

Essa relação pode ser vista tanto como uma separação da natureza quanto como uma volta a ela, uma busca da essência perdida do ser humano. Pensemos na metáfora do Éden: desfeita a comunhão original com natureza (que lhes fora dada por Deus), os humanos desde então buscam reencontrar-se com a deidade e re-instaurar o elo perdido. Essa é função dos rituais religiosos: levantar altares, preparar oferendas e fazer libações para integrar mundo humano e mundo divino, carne e espírito, vivos e mortos, passado, presente e futuro. Ao afirmar a relação com o sagrado no momento da gênese da humanidade, o pensamento mítico a afirma como definidora do humano, como sua característica primordial e constitutiva, anterior a todos os outros dados da cultura.

É o que de maneira exemplar podemos ver em Os camelos também choram (Die Geschichte vom weinenden Kamel, dir.: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, 2003).

Camelo

Pastores do deserto de Gobi têm de fazer um ritual para que a mamãe-camelo aceite seu raro filhote albino depois de um penoso parto. O ritual requer um “violinista” (na verdade, um tocador de morin khuur ou matouqin, tradicional instrumento de corda e arco), que é chamado do local quase-urbano mais próximo. A belíssima seqüência do ritual muito instiga a pensar: uma inter-relação entre seres humanos e animais espantosa para nossos ocidentalizados e de-mitificados padrões; um motivo invulgar para o questionamento das relações entre vida rural e vida urbana, por conseguinte, entre capitalismo e culturas tradicionais; e uma impressionante amostra da centralidade e importância dos rituais sagrados para a civilização (sejamos econômicos e fiquemos só com esses três).

Monastério no deserto de Gobi

Mas o cerne do filme parece não estar nas cenas do ritual musical, mas numa cena em que a comunidade se reúne aos lamas para orar. Diz um monge: “Nós do povo mongol homenageamos a natureza e seus espíritos protetores. Hoje as pessoas saqueiam a terra em busca de seus tesouros; assim fazendo, afastam os bons espíritos que deviam nos proteger do mau tempo e das doenças. Devemos nos lembrar que nessa nossa passagem pela terra não somos nem a primeira nem a última geração que por aqui passa. E por isso vamos rezar para pedir perdão, para que os bons espíritos voltem novamente. Devemos respeitar a natureza, o vento, o céu, a areia e a tempestade“.

O monge e o deserto

O homem sagrado não esquece que a natureza lhe dá o sustento; que a árvore é feita de madeira que pode ser cortada em lenhos; que a montanha é feita de minério que pode ser transformado em facas; que o fogo é carburador poderoso; que o camelo pode ser domado e feito meio de transporte; ou que a água do rio pode ser usada para impulsionar uma mó. Mas, a percepção mítica do sagrado na natureza impede a materialização, a profanização total de todas as coisas: reconhece na lenha, no fogo, nos animais e na água algo de divino, e vivencia o teor espiritual da natureza, não compreendendo ali somente uma fonte inesgotável de recursos. Eis o que transluz na oração do lama mongol e na relação dos pastores com os camelos.

Foto de Timothy Allen

Não se quer reatualizar aqui o mito do bom selvagem, afirmando que relações harmoniosas com a natureza só são possíveis numa mítica vida “primitiva”. Isso seria desrespeito para com os pastores do deserto de Gobi, além de trocar um mito por outro (não necessariamente melhor). Há outras maneiras de relacionamento com a natureza – e aqui podemos perguntar: o que é a natureza? Há muito a examinar. O que será assunto para as próximas colunas.

Foto de Juliane Gregor, no sítio virtual da National Geographic

 

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2 pensamentos sobre “Mito e Cinema I

  1. Gostei do seu texto! Acho que as metáforas do filme servem como uma aula mesmo. Claro que a proposta não é voltar a esse estilo de vida, mas aceitar o óbvio: é impossível viver sem estar em harmonia com a natureza… estamos sentindo isso na pele!

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