Mito e cinema II: O eterno feminino e o destino manifesto

Cordiais saudações!

O texto a seguir foi publicado em 23 de outubro de 2008 no Correio da Cidadania, com o título original de Mito e Cinema IV: A Natureza-Mulher e o Dever do Homem. Aqui, está republicado tal e qual, exceto alguns errinhos de redação, corrigidos. Este mesmo texto serviu parcialmente de base a um outro, que será em breve publicado em livro, uma coletânea com alguns autores, mas já com modificações substanciais. Quando o livro sair, avisaremos.

O nascimento de Vênus, de Alessandro di Mariano di Vanni Filipepi, 1469

Como o comentário da Cíntia diz muito bem, essa distinção entre natureza e cultura não faz muito sentido hoje. Era justamente a intenção problematizá-la. Mas a ideia mais importante do texto, ao menos eu pretendia que fosse, era a da persistência do mito do eterno-feminino – não o de Goethe, que nos eleva, mas o de Goethe também, é claro – relativamente ao da livre-iniciativa.

Charlotte Gainsbourg, mulher-natureza e anti-cristo

O mito do eterno feminino não está tão fora de moda quanto se possa pensar. O diretor dinamarquês Lars Von Trier fez um grande filme reatualizando a discussão sobre a dimensão política do eterno feminino (Anticristo, todos devem ter entendido) e, mudando a maneira como a natureza é representada – quase sempre como idílio e abrigo – apresentou-nos uma natureza inóspita, habitada de espíritos agourentos, uma escuridão não-criativa e desarmoniosa. Apesar de plena de significados e transcendências, a natureza de Von Trier não nos parece muito convidativa…

Mulher diante do sol nascente. Ou poente? Caspar David Friedrich, 1818-1820

A natureza do filme de Sydney Pollack é bem diferente. A começar pelo fato de que é bonita: as paisagens das montanhas rochosas são de tirar o fôlego. Elas provocam awe, são religiosamente inspiradoras de assombro, imagens que tentam retratar o sublime natural. E, de certa maneira, podemos ver ali uma ambiguidade tal como nos quadros de Friedrich: a simbiose entre humano e natural não significa necessariamente um retorno idílico e tranquilo à espontaneidade original, mas, como já bem dizia Rousseau, é impossível desistir da história e recomeçar do zero. Não há como fugir da civilização.

“There can be nothing in the world more beautiful than the Yosemite, the groves of giant sequoias and redwoods, the Canyon of the Colorado, the Canyon of the Yellowstone, the Three Tetons; and our people shoud see to it that they are preserved for their children and their children’s children forever, with their majestic beauty all unmarred.” Outdoor Pastimes of an American Hunter, 1905.

Ao mesmo tempo, é preciso formar o novo homem para a competição capitalista, é preciso fundar o direito, é preciso ocupar o território (ocupar, vejam só, esse verbo não sai da moda…) para a grandeza do homem branco, é preciso conquistar a terra, mulher infinita. A natureza de Pollack é fascinante, ela nos chama. Não se rende facilmente, não é tão hospitaleira quanto parece, mas é dotada de charme irresistível.

Deixo aqui claro: eu gosto do filme. – a ideia final, de uma convivência, conquistada, por certo, mas uma convivência, entre colonizadores e indígenas é uma inversão do senso-comum que ocupa o grosseiro das mentes. E o filme é tão mais grandioso porque ressalta a ideologia de quem se pensa outro colonizador. Será mesmo Jeremiah Johnson outro? A quem ele parece outro?

O vermelho no rosto vermelho

Que o leitor tire suas próprias conclusões, e, sobretudo, veja os filmes. Boa leitura e até a próxima.

* * *

Um diálogo:

Chris Bear Claw Lapp

Você nunca sente falta de mulher?

Mulher pra noite inteira? Ahahahahah… Eu peguei uma indiazinha pra morar comigo uma vez. A pior vagabunda que se vendia por qualquer ninharia… No fim, troquei-a por um rifle Hawkin! Os seios de uma mulher são a rocha mais dura que Deus já colocou sobre a terra, e eu não consigo achar sinal algum entre eles!

Tirado do belíssimo filme de Sydney Pollack, ‘Mais forte que a vingança’ (EUA, 1972; o título original é Jeremiah Johnson, nome da personagem principal). No filme, Jeremiah Johnson (Robert Redford, num de seus melhores papéis) sobe a montanha, abandona a civilização em busca de uma relação genuína com a vida em contato com a natureza. Lá encontra “Bear Claw” (pata de urso), Chris Lapp, há tempos adepto do anacoretismo, de quem obtém a resposta acima.

“You can’t cheat the mountain, Pilgrim”

Notem-se os termos da relação entre mulher e natureza – mistério, traição… E também a relação com o rifle: mulheres, claro! Mas sem um bom rifle é impossível sobreviver. O bordão de “Bear Claw” no filme é: “You can’t cheat the mountain, pilgrim, the mountain’s got its own ways (Você não tapeia a montanha, peregrino, a montanha tem os caminhos dela)”, seguido de um silêncio…

O indivíduo em contato direto com a natureza – eis a idéia mais cara ao faroeste americano. Na verdade, essa é uma idéia que remonta ao século XIX, aparecendo fortemente nos escritos dos autores “transcendentalistas“: Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson, Margaret Fuller, George Ripley, Elizabeth Peabody, dentre outros.

Reagindo ao intelectualismo e ao racionalismo em voga na época (principalmente em Harvard), os transcendentalistas viam no encontro com a natureza a possibilidade de romper os códigos de uma dominação religiosa puritana e autoritária. Thoreau diz que busca na natureza “uma vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança”, longe das convenções civilizatórias e aprisionadoras.

E talvez não haja mito mais reatualizado do que o do bom selvagem… Ainda que não com esse nome, a idéia é antiga: na sua condição natural, o ser humano é livre como em sociedade jamais foi ou será. Somente ali, na solidão, sob as leis únicas de Deus e da natureza, é possível ao indivíduo humano o reencontro consigo mesmo – e, por intermédio desse reencontro, o encontro com a verdade e a essência das coisas. A verdadeira natureza humana só se nos revela quando abandonamos a civilização corrompida e entramos em contato com a natureza – aí e então tudo se esclarece, compreendemos finalmente o mistério da vida.

Moema, Vitor Meireles, 1866.

Mas esse é só um aspecto da questão. A natureza também é freqüentemente associada à ideia de uma feminilidade misteriosa, uma mulher ao mesmo tempo sedutora, virgem, difícil de se penetrar – a rocha mais dura sobre a terra! Para domá-la, é preciso conhecê-la – quem o fará? O novo Adão: o peregrino desbravador, o colono bravio que submete as forças selvagens pela sua diligência e inteligência.

American Progress, óleo sobre tela, John Gast, c. 1870

Essa imagem da natureza liga-se à ideologia do destino manifesto: ao contrário das revoluções na Europa, que almejavam transformar o velho homem para uma nova realidade social, as revoluções nos EUA (políticas e espirituais) almejam preparar o novo homem americano para enfrentar uma nova realidade. O mito da liberdade natural do indivíduo se entrelaça, dessa forma, com os motivos edênicos na visão da América – expandir as fronteiras, reconquistar o paraíso, afirmar o valor humano – de certo homem sobre tudo mais.

Manifest Destiny, gravura, W. M. Cary, c. 1876

Mas não é só a montanha que não se pode tapear. Fugir da civilização, como Johnson aprenderá amargamente, é impossível. Onde quer que te escondas, ela te caça. Assunto para a próxima coluna.

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