CAZUZA

O filme Cazuza, O Tempo Não Para (Brasil, 2004, dir. Sandra Werneck e Walter Carvalho) apresenta um retrato de Cazuza que pode emocionar muitas mães, mas que nem de perto retrata a força de Cazuza. O filme deixa de lado um dos aspectos mais marcantes de Cazuza, aquele que hoje em dia incomodaria à maior parte do status quo conformista brasileiro: sua atuação política. Cazuza, como quase todos no Brasil da década de 1980, deixou-se levar, num primeiro momento, pela queda da ditadura. Mas só num primeiro momento, como ele mesmo disse várias vezes. Nas suas próprias palavras:

“Quando fiz “Ideologia”, nem sabia o que isso queria dizer, fui ver no dicionário. Lá estava escrito que indica correntes de pensamentos iguais e tal… A música, por sua vez, é muito pessimista, porque, na verdade, é a história da minha geração, a de 30 anos, que viveu o vazio todo. É meio amarga porque a gente achava que ia mudar o mundo mesmo e o Brasil está igual; bateu uma enorme frustração. Nos conceitos sobre sexo, comportamento, virou alguma coisa, mas deixamos muito pelo caminho. A gente batalhou tanto e agora? Onde chegamos? Nossa geração ficou em que pé?

Cazuza cuspindo na bandeira do Brasil, durante o show Ideologia, 1988

Cazuza cuspindo na bandeira do Brasil, durante o show Ideologia, 1988

Antes de mais nada, mudou o patriotismo. Pra mim, o patriotismo não é essa coisa símbolos, como a bandeira. Mexe muito mais com o sentimento. Quando me enrolei na bandeira, no Rock in Rio, eu estava acreditando. A coisa de cuspir na bandeira, três anos depois, foi contra aquele ato teatral do espectador. Eu estava cuspindo no símbolo, na bandeira que simboliza mesmo é a família Orleans e Bragança. Acho que não é hora de teatro com bandeira. O momento é de criticar, de virar a mesa, de sair da merda. Antes eu me enrolei foi aquele clima de Tancredo Neves. Eu estava, como todo povo, inebriado por um sentimento de mudança, de esperança. A coisa do vai-pra-frente, algo lindo, um movimento sincero que se esvaziou por erro dos políticos. No Rock in Rio, cantei por dez minutos com a bandeira, sonhei, acreditei. Quando eu era adolescente, também acreditava. A gente não tinha descoberto a vaselina, o conchavo. Entrava com garra mesmo. Nem sei mais se essa garra existe hoje com os novos adolescentes.”

Onde, no filme, aparece esse Cazuza? Em momento algum vemos ou ouvimos nada parecido com Só as mães são felizesVai à luta, muito menos então vemos Brasil ou Burguesia. Somente uma parte de Ideologia é cantada no filme e a impressão, ao fim, é a de Cazuza como um James Dean pós-moderno, típico jovem burguês da década de 1980, às vezes inclusive egóico demais, às vezes inclusive muito impertinente (como na cena em que sobe na mesa do restaurante), quase sempre um rebelde sem causa que, por causa da vida louca vida, morreu vítima de desregramento geracional. Todo o inconformismo político, todos os ataques à moral conservadora e castradora que hoje ainda assola a vida brasileira aparecem à margem do melodrama em que o filme transforma sua luta contra a AIDS. À margem não – esses temas, essa atuação política e  combativa de Cazuza estão totalmente fora do filme. Filme produzido por Daniel Filho, em momento do Brasil atual de congraçamento em consumo das classes médias (a antiga e a “nova”), ora, por que ser tão crítico? No entanto, era Cazuza quem lançava o desafio mais incômodo: “Brasil, qualé?! Mostra tua cara!”. A entrevista a seguir, não poderia ter sido feita ontem?

https://www.youtube.com/watch?v=UHVmq4WDs68

Ao contrário de muitos artistas brasileiros que, durante a ditadura, engajaram-se fortemente contra o regime militar, e, na década de 1980, abaixaram a guarda e não se posicionaram claramente, talvez por conveniência, talvez por falta de clareza, talvez por ilusões românticas, Cazuza manteve afiada a navalha da crítica, criticando acidamente a tacanhice, o clientelismo e o jogo burguês de conveniências que continuou no Brasil, apesar do fim da ditadura. Do alto panteão oficial da MPB, poucos como ele tiveram a mesma coragem aguda (mas nem todos a mesma qualidade artística). Pouquíssimos hoje, muito menos, têm sequer sombra da mesma consciência histórica, politizada e poética, como ele tinha.

Ao contrário do que o filme tenta nos fazer crer, Cazuza foi muito mais do que um geniozinho-burguesinho deslumbrado com a fama e incompreendido. A causa desse silenciamento de seus atos e suas palavras mais politizados e questionadores parece clara: Cazuza ainda incomoda, e muito, ao conformismo nacional. Viva Cazuza!

https://www.youtube.com/watch?v=qSzy2fbGMIE

 

 

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Um pensamento sobre “CAZUZA

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