O futebol

Já dizia um filósofo, o ensaio começa e termina onde quer, como o vento sagrado. Levado pelo clima, escrevo um texto de ocasião. Meu amigo José Alexandre Matelli entende pacas de futebol, cantou antes dos pênaltis: “Vem aí a redenção de Júlio César, pegador de pênaltis.” Dictum ac factum. Meu outro amigo Vitor Cei entende pacas de Brasil, sentenciou: “Historicamente o Brasil já perdeu muitos outros jogos roubados, esse é só mais um. Futebol é só um esporte.” Concordo, em parte. Futebol não é só um esporte, futebol é a maior metáfora da vida nas sociedades capitalistas avançadas, tudo está ali: o imponderável, as diferentes gêneses da moralidade, a alegria e a tristeza, a justiça e a injustiça, os fatores extra-campo (sejam lá o q forem), o sofrimento e a sublimação. E muito mais. O futebol é como a linguagem era para Leminski, futebol é linguagem efetiva, feita com o corpo todo, não só com a língua ou o cérebro, não se justifica perante nada, as outras coisas é q se justificam diante dele. Cabe lembrar q são só as oitavas e a selecinha do Felipone ainda não convenceu – esta sim precisa se justificar perante tudo ainda, pq se futebol é linguagem, a da atual selecinha é das mais primitivas, não chega a desenvolver sintaxe elaborada, a pragmática é cheia de falácias e a semântica ou é pobre ou é metafísica, nomeando ciclopes a bel-prazer. Mas ciclopes, todos sabem são Joões preferidos de algum Odysseus. Além disso, o mundo torcia em favor do Chile, pelo roubo contra a Croácia, pelo Chile não ter 5 títulos mundiais e por não ser o futebol brasileiro esse o q joga a selecinha do Felipone: o futebol brasileiro é outro, já virou mito, nunca mais será o q já foi, sempre tentará reviver o eterno. Não me surpreende o fraco desempenho em campo dos jogadores brasileiros, dadas as disputas entre a população, a violência – muita gente ainda está presa e é torturada, o q desmonta o mito de q as manifestações iam parar durante a Copa pq  todo mundo ia entrar na hipnose de torcer sem consciência política – e o cinismo da política de gabinete – a aliança Dilma&Kassab mostra isso. O país está convulsionado e dividido, não há, como houve em 1970, a mesma euforia em torno a um projeto de unificação nacional, ainda que o discurso, as imagens e a propaganda tentem a todo custo reviver o atroz ufanismo triunfalista e nacionalista, em conformidade (como não poderia deixar de ser) com o neo-nacional-desenvolvimentismo de hoje. As alianças políticas revivem mais do mesmo da política brasileira, as plateias nos estádios mostram uma cara muito pequena da população brasileira, os pobres, negros e mestiços do Brasil só aparecem em campo, dando espetáculo aos bem fornidos de conta bancária. Depois da Copa, as eleições, essas sim, mostrarão partidas de dar medo e causar terror, não pela iminente reeleição da presidenta (se tudo continuar como está; para desgosto de grande parte desse mesmo público q ora enche as arquibancadas), mas pelo legado q deixarão: qual insurgência restará? Aguardemos as próximas fases, mas não sem antes rever Garrincha, Alegria do Povo, filmaço de Joaquim Pedro de Carvalho, que ainda tem muito a nos dizer sobre Brasil, futebol e a genuína comoção popular. 
Está no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gycn9hkXRCA

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5 pensamentos sobre “O futebol

  1. Parabéns pelo pertinente artigo, caro Cassiano; além de eminente professor de Filosofia, você conhece muito de futebol!
    Assisti e gostei do filme-documentário sobre o Garrincha, que vi jogar, ao vivo, quando menino.

      • “[…]. Cabe lembrar q são só as oitavas e a selecinha do Felipone ainda não convenceu. […]” (CTR)

        Você entende muito de futebol, Cassiano, além do filósofo que é…!

  2. Olá, sou a Bet Alves, Parabéns! você é bem realista, tudo está ligado e o futebol tem caracterizado os interesses capitalistas, onde tudo é combinado, com negociatas de qual írá ganhar, indo as prisões, feridos, ou até mortos por se manifestar, parece até que os militares puseram ‘chip no governo (dos que sofreram no período da ditadura), fechando olhos e bocas dos pobres, negros e mestiços e que também continuaremos a pagar a conta de acidentes e das mortes na grandes construções da copa, como as superlotações de transportes, no ir e vir, para continuarmos escravos na busca do pão de cada dia, nas lotações da vida .
    Os jogadores são pessoas sem endereço, vendidos pelos ideais do sistema capitalista, usados como peças nas lojas da “vida”.
    Onde está o Abolicionismo, a dignidade, o direito humano? Por que reduzir as pessoas assim?
    O esporte deveria ser amplo, não “só” o futebol, veja quanto pode ser feito nas escolas nesse aspecto, a criança, o adolescente , o jovem, o adulto, o “idoso”, se fossem despertados suas habilidades com a saúde, educação conectado as competências com equipamentos adequados e pessoas qualificadas, mas hoje quando “muito’ temos O GIZ E O QUADRO NEGRO.
    Gostei do filme-documentário, recordar é viver, ele mostra também o sofrimento do jogador, sacrifício com as jornadas de trabalha, mas poeta da terra que ama pássaros e foi o máximo ouvir a voz do ‘mainá?’ contente, apesar de preso. Ver também como o ser humano dribla das “pernas tortas”, e como o médico poderia tirar Garrincha dos jogos, mas é gratificante perceber que temos um pouco de heróis dentro de nós com humildade. Ufá tenho dito! CORDIAIS SAUDAÇÕES, PAZ E BEM!

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