Uma desexistência casual

Se Raul gravou Meu amigo Pedro, sinto-me legitimado para escrever ao meu amigo Ruy e continuar a série sobre a inexistência do rock brasileiro.  Na verdade, acho que seria melhor dizer como Manoel de Barros, o rock brasileiro des-existe.
Uma das coisas que fazem o rock brasileiro des-existir é seu sincretismo desde a des-nacença. O Brasil se brasilifica fazendo o rock des-existir. A capacidade de comunicação da música brasileira transmutada em rock faz coisas extraordinárias. Uma delas é re-atualizar Pink Floyd na Bahia (e não estou falando da loja de instrumentos musicais em Feira de Santana). Pink Floyd foi até os anos de 1990 o grupo de rock mais ouvido entre os estudantes brasileiros, uma hegemonia absoluta durante mais ou menos 30 anos.  Não admira então que o inventor do assim chamado AxéMusic, Luiz Caldas, preste tributo honestíssimo ao grupo britânico, como se pode ver no video.

Luiz Caldas em traje de Rock Dark Progressivo. Para ver o video, clique na imagem.

A influência de Raul Seixas nota-se na des-existência do rock de Luiz Caldas, multi-instrumentista e multi-compositor. Em seu sítio virtual na Internet, ele disponibiliza mais de três centenas de música, em mais de tantas outras dezenas de discos completos, gratuitamente. Um artista “híbrido”, “sem fronteiras”, nas palavras do próprio site.  Sim, certamente sua linguagem musical não tem caráter, como Macunaíma, e representa a própria cultura brasileira, sem se deixar capturar em essências fixas ou rótulos midiáticos. O rock, na música de Luiz Caldas, des-existe como em nenhuma outra.

A capacidade de aglutinação de ritmos, harmonias e timbres da música brasileira encontrou no rock um cadinho inigualável de composição e criatividade. Na Bahia, parece que essa alquimia ressuscitou milagrosamente todas as vezes em que foi decretada a morte da cultura brasileira.

Para ver e ouvir Malacaxeta, clique na imagem

Para ver e ouvir Malacaxeta, clique na imagem

Em Salvador, cidade de nascimento do samba e do sincretismo vivido cotidianamente pela via da religiosidade, nada mais natural. Essa capacidade de sincretização não anda desacompanhada de seu potencial de comunicação. Basta ver a performance de Pepeu Gomes com Guilherme Schwab para já saber quanto de vida se transmite de uma geração a outra, por vias nem sempre racionalmente delimitadas.

Essa característica sincrética bahiana extrapola na verdade todas as fronteiras geográficas para se transformar numa característica brasileira. E a música brasileira, talvez nosso maior legado à história da humanidade, realiza essa tarefa como nenhuma outra no mundo. Tendo diante de si sons de fontes e modalidades as mais diversas, os compositores genuinamente brasileiros escolhem e montam, numa sintaxe única, uma linguagem sonora de alcance verdadeiramente universal. E isso sem o auxílio de uma indústria cultural portentosa como a estadunidense.

Com os exemplos dados, espero ter evidenciado que, em se tratando de música, a sintaxe não precisa ser linear, sequencial, como num idioma. Num acorde, na relação da harmonia com a melodia, os sons são simultâneos, expressam variações de timbres e alturas, construindo camadas de sentido bastante espessas e nada simples, por mais simples sejam as construções harmônicas. Na elaboração do rock nacional – o qual, aliás, segundo meu amigo Ruy, inexiste – essa elaboração sintática evidencia o jogo do acaso efetivamente operante na história da humanidade: fugindo às regras explícitas e às consequências logicamente esperadas, a combinação de sons, ritmos e harmonias funde-se à de condutas, atitudes e intenções sociais, jogando para longe os ditames do que é considerado necessário ou mesmo aceitável. Essa fusão de elementos simbólicos de maneira inesperada, no fim das contas, é toda a cultura. Primazia temporal, originalidade precoce ou qualquer outra categoria meramente temporal usada para descrever os fenômenos culturais erra totalmente o alvo.

O rock brasileiro, em des-existindo, permanece vago, sempre aberto às possibilidades do acaso. Os meios pelos quais incorpora as surpresas próprias do Brasil, as intervenções espontâneas de outros domínios da cultura brasileira, os jeitos e as texturas dos corpos brasileiros justapostos aos timbres, alturas e outros aspectos sonoros fortalecem a indeterminação da música brasileira contra os rótulos que se lha impõem de fora. Por essas e outras, o rock brasileiro des-existe e continuará des-existindo reativamente a todas as tentativas de matá-lo definitivamente.

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