De quem é esse canto?

No famoso capítulo sobre a indústria cultural de A Dialética do Esclarecimento (1944), Theodor Adorno e Max Horkheimer apontam a grande jogada midiática até hoje dominante: a indústria cultural não produz obras, reproduz fórmulas de sucesso comercial. Em se tratando de uma indústria, o problema principal é vender, é claro. Em se tratando de indústria cultural, o importante é vender cultura – essa mercadoria que, se comprada, impele o comprador comprar todas as outras no seu bojo. E como vender cultura? Simples: enquadrando-a numa fórmula que apague o que a cultura possa ter de conflituoso e negativo para não desagradar o máximo de consumidores possível.

bushhandsupbig_468x289

A indústria cultural opera, então, uma homogeneização dos conteúdos numa linguagem de fácil assimilação, um nivelamento de todas as contradições e de todos os elementos possivelmente perturbadores para as pessoas, para que na aparência tudo se mostre perfeitamente adequado e límpido, inofensivo a qualquer pessoa. Em outras palavras, todos os elementos que possam sugerir conflitos de classe, visões de mundo antagônicas, racismo, machismo, feminismo, pós-gênero, tudo, qualquer coisa que denuncie as contradições do momento histórico revelado pelas obras culturais deve ser mitigado, se não eliminado, do produto final, num arranjo semiótico que esconda esses elementos. A função disso é mediar toda ação intelectual por parte do consumidor (o espectador, o ouvinte, a plateia…), retirando dele a autonomia para fazer ilações sugeridas pela obra. Como não se trata exatamente de obra, mas de produto comercial, quem o consome não precisa e, na verdade, não deve pensar muito, basta que o produto satisfaça seu desejo de consumir. Em se tratando de um produto cultural – um filme ou canção, por exemplo – trata-se de barrar o mais minuciosamente quanto possível o pensamento sobre o que não está dito. É como se dissessem: contente-se com o que está explícito, siga esta lógica, aceite esta mensagem, é a única que interessa.

034

No entanto, é uma lição da semiótica que a própria natureza do signo, ao mesmo tempo em que encobre o objeto, também o revela sob algum aspecto.

danielamercury-ocantodacidade

            Como uma cobra que se mata com o próprio veneno, a receita formular da indústria cultural não consegue deixar de revelar o que pretende esconder. O que foi reprimido, retorna à luz, o que foi oculto, acaba por revelar-se inevitavelmente. Nenhuma mediação é absoluta, justamente por ser mediação – sempre é possível puxar o fio da meada e encontrar, lá onde a mediação silenciava, o que ela pretendia ocultar.
A história da canção “O canto da cidade”, sucesso de Daniela Mercury na década de 1990, ilustra bem esse ponto da teoria. Ao eliminar todas as referências diretas aos negros e à cultura afro, a mudança da letra da canção mostra bem o trabalho de produção para transformar a canção em mercadoria aceitável por todas as classes, tornando vagas as referências culturais e os versos de afirmação mais explícita. O controle sobre a febre carnavalesca foi total e direcionou a libido coletiva para outro tipo de êxtase que não o político, como as falas da cantora, do produtor paulista e do próprio autor indicam.

            O documentário televisivo do canal Bis mostra tudo isso, basta saber ver e ouvir.

Por trás da canção O Canto da Cidade

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s