Escândalos e simulações

Depois de uns dias, edito esta publicação para um esclarecimento.
Usei o texto para uma aula do curso de jornalismo, na semana passada, cujo tema foi a teoria dos simulacros de Baudrillard. Como estratégia problematizadora ou sensibilizadora, usei um trecho do filme Um dia de fúria (Falling down, dir. Joe Schumacher, EUA, 1993), a famosa sequência da lanchonete.

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Michael Douglas no papel de William Foster, personagem que detesta simulacros. Clique na imagem para ver a sequência.

 Depois de mostrar a sequência, pedi aos estudantes que identificassem um erro evidente no que escrevi. É um erro intencional, escrevi com o intuito de que eles o identificassem depois de conhecerem a teoria. Numa classe de uns 40 estudantes, apenas uma aluna identificou. O erro é repetido 3 vezes, evidenciado por uma imagem e mesmo assim passou batido.

E qual é esse erro? Janaína Paschoal não é deputada. Ela é professora da USP, autora do pedido de Impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e não é deputada. Um leitor do blog indicou o erro, mas meus alunos não. Alguns apontaram que a Avenida da foto lá no fim não é a 23 de Maio. De fato, mas eu não quis dizer que era, a legenda não é para identificar a Avenida. Mais um ponto para a teoria de Baudrillard.

É isso. Sem mais, segue o texto tal e qual. Cordiais saudações.

* * *

O que um escândalo político revela? Por que os grandes media difundem tantas imagens de escândalos? Celebridades têm suas vidas pessoais expostas em escândalos. Reputações são destruídas. Políticos desmascarados. Filho de FHC com a jornalista da Globo. Mensalão. Impeachment. Operação Lava Jato. Panama papers. Escândalo após escândalo, num rol interminável, ficamos estupefatos diante de cada um e no entanto sempre há sede para mais escândalos.

            Para Jean Baudrillard, nenhum escândalo é o que parece, tampouco revela alguma verdade oculta depois de exposto. Melhor, a verdade mais importante não é a revelada pelo escândalo, mas aquela que todos os escândalos ocultam ao serem descobertos. Hã?

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Deputada federal Janaína Paschoal, em foto publicada no jornal O Estado de São Paulo [http://migre.me/trvcr]. Co-autora do pedido de Impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a deputada tem sido chamada de “musa do Impeachment” por certos media. Recentemente, em evento na USP, fez um discurso bastante polêmico,  o qual foi imediatamente relacionado pelo discurso machista a um suposto “descontrole hormonal” da deputada. A lógica da simulação e do simulacro pode ajudar a entender quais ações políticas efetivas restam obliteradas por essas mediações discursivas.  

            Em seu livro Simulacros e simulação, Baudrillard analisa a lógica da cultura mediática dos escândalos. Para ele, não há mais distinção entre um real objetivo e factual e as imagens e representações ficcionais, vez que nossa realidade é construída culturalmente. Na verdade, ele defende de maneira muito radical que o próprio real é uma simulação, um efeito de real prévio a toda facticidade, um modelo representativo que tomamos por real, mas que não é real, é apenas um simulacro de real. Real, mesmo, aquele, duro, concreto, irredutível à nossa vontade, esse perdeu-se há muitas eras. E, se as simulações são “reais” sem nenhuma base ou fundamento original fora delas mesmas, então é muito mais complicado distinguir o que é ou não um simulacro. Uma simulação não se distingue de um real, tampouco ela se disfarça de real, mas é, antes, algo que elimina o real e assume seu lugar. Como, por exemplo, uma criança que simula uma doença para não ir à escola – ela não está doente, mas tem febre, vomita, fica pálida etc. Ou uma gravidez psicológica, na qual a barriga da mulher cresce mas sem que haja feto. Simulações e simulacros não são meras imitações, mas têm todas as características do real que fingem ser e que não existe de fato.

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Vivien Leigh como Blanche DuBois, personagem da peça Um bonde chamado desejo, de Tenessee Williams, na adaptação para o cinema dirigida por Elia Kazan, em 1951. Blanche é uma mulher que tenta a todo custo esconder a idade. Ela mescla realidade e imaginação, recusando a primeira em nome da segunda, simulando uma aparência e uma personalidade fantasiosas para ocultar problemas do passado. Apesar de ter sido escalada para o papel por ser uma estrela já consagrada, Vivien Leigh foi eclipsada por Marlon Brando, então praticamente desconhecido em seu segundo papel no cinema. O filme o transformou imediatamente em um dos principais astros de Hollywood. Sabe-se que Tenessee Williams se desentendeu com Elia Kazan por causa disso – ele preferia que a tônica continuasse na personagem feminina, mas Kazan, percebendo a força dramática de Brando, teria filmado de maneira a potencializar sua imagem na tela.

Mas o que ele chama de “o real” é o mesmo que pensamos? É comum e generalizada a tendência de distinguir o que acontece no mundo dos fatos do que acontece apenas na nossa imaginação. De certa maneira, sabemos que o que vemos acontecer na TV não é exatamente o mundo real, mas uma representação dele. Mas Baudrillard faz uma consideração em sentido contrário. Ele usa o conceito de “simulação” para definir a ocorrência de algo real que não é definido pela sua diferença com o imaginário, mas pela sua própria natureza imaginária. A realidade dos simulacros e das simulações é uma hiper-realidade: a foto do sanduíche no painel luminoso é mais gostosa do que o próprio sanduíche, é hiper-gostosa, atiça nosso desejo, mobiliza nossa vontade de comer que nada tem a ver com fome, pois quanto menos fome sentimos mais vontade temos do sanduíche da foto. A hiper-realidade é mais real do que o real porque, apelando aos nossos desejos de consumo, formata nosso desejo com o modelo de realidade reproduzido infinitamente pela ordem do capital. Uma simulação é, assim, como um ensaio de teatro: um acontecimento é ensaiado no palco para representar um real, mas aquilo que é ensaiado no palco é uma ficção que não necessariamente tem origem numa realidade específica ou nem menos se baseia em algum fato concreto. E, no entanto, ao vermos essa simulação no palco, identificamo-nos com ela. Como Blanche DuBois, queremos muita magia, queremos um nada de real. Essa nossa vontade de nada de real é satisfeita pelos simulacros da sociedade de consumo.

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Placa na entrada da Disneyland com os dizeres: “Aqui você deixa o hoje e entra no mundo do ontem, do amanhã e da fantasia”.

Baudrillard dá dois exemplos de simulacros hegemônicos em nosso mundo, a Disneylândia e o escândalo Watergate. Resumidamente, a Disneylândia é o grande mundo hiper-real que permite às pessoas purgarem seu desejo de sonho reprimido pelas duras engrenagens do trabalho sob o domínio do capital. O grande sonho não é a Disneylândia, é a América, o grande sonho que nunca se realiza e se dissolve na fragmentária e infinita realidade dos objetos de consumo. Ela existe para nos fazer pensar que é possível ainda realizar a América – ali, podemos sonhar, como se não vivêssemos vidas falsas fora dali.

Por ora, deixemos de lado a Disneylândia e prestemos atenção a Watergate. Talvez a análise de Baudrillard nos sirva para pensar algo sobre os nossos recentes escândalos políticos.

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Charge de 1972, publicada no The Washington Post, ironizando as ilegalidades no financiamento da campanha de reeleição de Richard Nixon, do Partido Republicano. Os Democratas alegavam que o judiciário e a Casa Branca não conseguiriam estavam comprometidos com as falcatruas e exigiam uma comissão de inquérito independente. O titulo da charge é “There’s no need for an independent investigation–We have everything well in hand [Uma investigação independente não é necessária, temos tudo sob controle.].” O desenho mostra cada um dos investigadores carregando sacos de dinheiro – fundos de Nixon, doações de bancos, dinheiro provindo de corrupção e desvio de verbas públicas.

Segundo a lógica dos simulacros, Watergate não é um escândalo real, mas uma simulação cuja função é fortalecer outro simulacro: desmascarar Nixon é fortalecer a instituição da presidência dos Estados Unidos. Com isso, oculta-se outro escândalo muito maior, o da “crueldade instantânea” do capital, “a sua ferocidade incompreensível, a sua imoralidade fundamental”, inadmissíveis a toda moralidade ainda baseada em valores iluministas. No entanto, acusar o capital de imoral é inócuo, uma vez que o capital não tem contrato algum com a sociedade e está se lixando para códigos e regras de conduta – sua voracidade é a única coisa que lhe interessa, pois “é uma empresa monstruosa, sem princípios, um ponto, nada mais.” O que o modelo dualista ordem/desordem, moral/imoral, capital/anti-capital oculta, portanto, não é o acontecimento escandaloso do gozo do capital e seu desprezo pela sociedade, mas o fato de que nós gozamos com o capital. Afinal, não é a força da lei americana que possibilita a guerra do Vietnã? E não é essa mesma guerra a condição de sustentabilidade da sociedade de consumo – não é bom poder comprar um jeans Levi’s a bom preço? Onde está o escândalo – na própria guerra ou na nossa satisfação de consumo que ela proporciona?

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“Watergate não é um escândalo, é o que é preciso dizer a todo custo, pois é o que todos tentam esconder […]. Não é um escândalo a denunciar segundo a racionalidade moral ou econômica, é um desafio a aceitar segundo a regra simbólica.”

O escândalo, então, serve para preservar e reestabelecer a ordem, e é, portanto, não um escândalo genuíno, mas uma cobertura para o escândalo mais profundo e radical, que é a manutenção da ordem do capital, esse sim, um escândalo oculto e não divulgado. O escândalo de Watergate serve como uma ilusão: a cega e desgovernada força do capital pode ser enfrentada e detida. Com toda a realidade econômica no limbo da irresponsabilidade do capital, usamos Watergate para imaginar que o mal pode ser descoberto e a justiça pode prevalecer sobre ele. Mas, pensando dessa maneira, estamos apenas cegos à verdadeira força destrutiva do capital, que avança com ou sem Nixon. Como a Disneylândia, a lógica do escândalo serve para criar distinções ilusórias e dualistas que ocultam o movimento da fita de Moëbius sobre a qual nos equilibramos, alimentando a ilusão de que alguma ordem alternativa pode ser criada. Vivemos uma hiper-realidade que se nutre de si mesma – um escândalo remete a outro escândalo que remete a outro e assim sucessivamente, numa circularidade auto-referencial e distorcida.

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Desenho de uma faixa de Moëbius por M.C. Escher. Matematicamente, a faixa de Moëbius tem a propriedade de ser não-orientável, quer dizer, não é possível escolher um ponto vetorial de orientação na sua superfície. Segundo a lógica de Baudrillard, nós somos as formigas.

A tese sobre Watergate radicaliza a ideia de que o real é sempre construído – quando nascemos, o mundo já está pronto. Ao entrarmos no mundo real, já começamos a pensar com ideias, representações, códigos significantes feitos por outros, para outra realidade que não a nossa. Tudo isso herdamos sem sequer poder questionar. Como construção simbólica, o real é sempre um imaginado, no qual falsamente cremos, insistindo em ser ele uma realidade palpável e efetiva quando na verdade é um tecido de signos. Mas os signos também são efetivos, aliás, são o que há de mais efetivo. É justamente essa efetividade que perdemos quando adentramos a ordem das simulações, pois uma simulação está além da verdade e da falsidade.

Para compreender essas afirmações, é necessário recorrer a outra obra de Baudrillard, seu livro Sistema dos objetos. Em algum ponto da história, diz ele, os objetos tornaram-se signos e os signos tornaram-se objetos. As trocas sociais, portanto, não são apenas trocas entre objetos, como um primitivo escambo, mas trocas simbólicas, trocas de signos por signos, de significações por significações. E, como os signos sempre carregam uma “mais-valia de significação”, quer dizer, sempre dizem algo mais do que a mensagem intencionada (digamos assim), a troca entre os signos nunca é exata, sempre há algo que se ganha e algo que se perde (esse ponto também Umberto Eco defendeu à exaustão: transações semióticas sempre se dão num jogo de perdas e ganhos).

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Roy Lichtenstein

Para Baudrillard, o que perdemos é sempre o referente e o que ganhamos é sempre uma rebarba significativa, uma gordura de significação, um excesso simbólico. Isso aumenta cada vez mais nossa distância de objetos reais, mesmo que lidemos cotidianamente com eles. Nossas relações com os objetos reais estão cada vez mais mediadas por outros processos e interesses simbólicos que são, eles mesmos, constructos históricos. Nesse sentido, as mediações simbólicas só são arbitrárias por serem artificiais, melhor dizendo, são o resultado espontâneo de um processo cultural, mas não no sentido de serem impostas por uma decisão consciente e voluntária. Não há vida fora do processo de construção histórica dos signos e das mediações culturais – a própria cultura não é outra coisa que mediação semiótica. A troca simbólica, então, passa a ser a forma de realidade social dominante ou hegemônica, se não a única.

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Uma cena comum na cidade de São Paulo, a vida anda em meio ao graffiti, de carro ou a pé, ou ainda de bicicleta, mais recentemente. São Paulo possui a maior galeria de graffiti a céu aberto do mundo, os muros da Avenida 23 de Maio.

A realidade dos signos se impõe sobre todas as outras quando os signos se livram dos vínculos sociais, emancipando-se das amarras que os prendiam ao mundo real. Por ser fabricada, a conexão dos signos com o mundo é uma conexão intencionada em vista de certos propósitos. Na lógica dos simulacros, ela é uma pretensa conexão real, já que os objetos fabricados para consumirmos significam algo acrescentado à nossa realidade que vai muito além de sua função específica, seu valor-de-uso. A gordura significativa é o que mais importa: sucesso, conforto, segurança, bem-estar, beleza etc. Desse modo, os produtos não significam o objeto e a função em si, mas todo o complexo de ideias a ele atribuídas. Por isso, é a significação que produz efeitos no real, e não o contrário: o real não é causa da significação, é um mero efeito dela. As imagens produzidas do mundo influem nas condutas, nos processos sociais, na produção e na reprodução material da vida. A realidade, então, não é mais o polo oposto da ficção, é ela mesma uma representação e uma ficção.

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Recentemente, a autora Naomi Klein publicou uma severa crítica ao capitalismo orientado ao consumo de marcas em sem livro Sem Logo. Ao fim, ela distingue a cidadania do consumismo, defendendo uma versão globalizada da primeira como alternativa ao modelo de globalização hegemônico a partir dos anos de 1990.

A análise de Baudrillard parece não deixar espaço para resistir, quem dirá romper o fluxo das simulações. De fato, ou estamos fora do processo, como se deuses fôssemos, ou estamos dentro dele e fazemos parte desse grande ensaio simulatório. Mas, se não podemos nos por no lugar de Deus, podemos fincar pé no palco e arbitrariamente contrapor aos simulacros a sua própria imagem invertida, refletindo o reflexo, como um espelho diante do outro. No nosso mundo, a simulação funciona de modo a erodir os referentes reais distintos das suas representações. Se um mundo real não existe objetivamente, nossa única alternativa é assumir um papel ativo no entrelaçamento dos fios desse tecido simbólico. Se a função da hiper-realidade é esconder seu próprio funcionamento, seu modus operandi, é só fincando o pé nesse processo que podemos evitar sermos totalmente engolfados por ele. Isso quer dizer que temos de nos transformar em consumidores compulsivos, porém “críticos”? Pessoalmente, prefiro dizer que é possível construirmos mediações imprevistas no modelo herdado, com o modelo herdado – entretecendo mediações inusitadas ou mesmo proibidas, estabelecendo mais trocas simbólicas, buscando complexificar canais dados como naturais e simples, e, com isso, talvez consigamos mostrar os limites dos discursos estabelecidos. Se conseguirmos fazer isso, talvez não encontremos saída da teia, mas ao menos teremos tentado forçar as linguagens contra seus próprios limites, ganhando uma maior compreensão do que antes passava despercebido e tendo maior consciência da linha de separação entre o dito e o não-dito.

Na descrição de Baudrillard, o real apenas finge ser autêntico, simula ser uma realidade estável, objetiva e originária, quando de fato nada mais é do que o produto das trocas simbólicas entre signos na cultura. É imoral FHC ter um filho com a jornalista da Globo enquanto casado. O mensalão é o maior caso de corrupção no Brasil. O Impeachment não tem base legal. A operação Lava Jato é apartidária e necessária. O que são os Panama papers? Janaína Paschoal é a musa do Impeachment. Descartadas as equivalências entre esses simulacros, o exesso de gordura vai nos exigir muito exercício para ser queimado.

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