Conversas só acontecem entre pessoas de mente aberta

“O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo.” Riobaldo Tatarana, em Grande Sertão: Veredas, p. 47.

Karl Barth (1886-1868) foi um teólogo suíço. Barth era protestante, mas isso não impediu o papa Pio XII de considerá-lo o teólogo mais importante da cristandade desde Tomás de Aquino (morto em 1274).

Barth também foi um dos mais influentes teólogos do século XX. Defensor de uma teologia dialética, postulante da natureza profundamente contraditória da verdade divinal, ele também foi um autor muito prolífico e escreveu uma obra imensa, em tamanho e em áreas de interesse – da dogmática teológica às relações do cristianismo e da igreja cristã com a política, os Estados Nacionais e as guerras do século XX. Com efeito, uma de suas principais preocupações era a compreensão e a refutação do nazismo: Hitler teria conseguido colocar toda a Alemanha num estado de sonho. Era preciso acordar desse sonho.

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Barth e Martin Luther King Jr. nos E.U.A., 1962, unidos na luta contra demônios de várias espécies.

Para isso, ele desenvolveu uma tese muito interessante sobre a  demonologia. Ele não negava a existência de demônios, ao contrário. Demônios existem! Em vez de negar sua existência, devemos nos perguntar: como nos relacionamos com eles? A resposta de Barth é dialética: não podemos crer nos demônios, mas também não podemos questionar sua existência a ponto de negá-la. Com isso, ele quer dizer que a resposta que estabelece uma disjunção essencial, ou o bem ou o mal (como a resposta de Kierkegaard: ou a vida hedonista ou a vida ética), é insuficiente para a nossa vida contemporânea. Barth não é um simplista. Ele defende que, quando aceitamos a crença em demônios, existe “o perigo iminente de que ao fazê-lo nós mesmos nos tornemos um pouquinho ou até mais do que um pouquinho demoníacos“, porquanto a nossa própria crença no Pai-da-Mentira e seus filhotes é a causa a caça às bruxas – literal e metaforicamente! Quando cremos em demônios, “admiramos a serpente venenosa em vez de atacá-la”. E todavia, pura e simplesmente negar a existência de demônios também os empodera, porque “se ignoramos os demônios, eles nos enganam, escondem seu poder até que somos constrangidos a respeitá-los e a temê-los como forças genuínas”. Qual atitude devemos ter, então? A atitude correta, para Barth, é “na fé, opor a eles uma descrença resoluta“. A resposta de Barth, assim, é algo como a sabedoria de Riobaldo Tatarana: não cremos e não negamos a existência d’O-que-nunca-se-ri, nós descremos!

A carta que traduzo e ora publico aqui foi escrita por Barth da Basileia, cidade suíça na qual foi professor durante quase 30 anos, na mesma universidade onde Nietzsche lecionou. Ela é endereçada a Francis Schaeffer (1912-1984), teólogo conservador estadunidense, proponente de uma teologia protestante mais “histórica”, contrária protagorasao que ele chamava de “modernismo teológico”. Para Schaeffer, a civilização ocidental conheceu seu declínio no século XX por ter se tornado mais pluralista e mais humanista (“o homem é a medida de todas as coisas” era a sentença de Protágoras, vale lembrar). Schaeffer chegou a escrever um manifesto cristão contrário ao manifesto comunista, defendendo a objetividade da verdade e do papel fundamental da igreja cristã na defesa dela.

O meu palpite é que Schaeffer era um demônio para Barth.

Bergli, Oberrieden, 3 de Setembro de 1950

Rev. Francis A. Schaeffer

Châlet des Frênes, Champéry

Caro Sr. Schaeffer!

Acuso o recebimento de sua carta de 28 de Agosto, bem como de seu artigo “O Novo Modernismo”. No mesmo dia, seu amigo J. Oliver Buswell me escreveu de Nova Iorque, acrescendo uma resenha (The Bible Today, p. 261 seq.), “A teologia de Karl Barth”. Vejo que as coisas que você pensa de mim são mais ou menos da mesma espécie que as que eu achei no livro de [Cornelius] Van Til sobre o assunto. E vejo: você e seus amigos escolheram cultivar certo tipo de teologia que consiste numa espécie de criminologia; vocês vivem do repúdio e da discriminação de todas e cada uma das criaturas próximas, aquelas cuja concepção não é completamente (numericamente!) idêntica às visões e declarações de vocês mesmos. Vocês estão “andando sobre a sólida rocha da verdade [sic]”. Nós, outros, pobre pecadores, não. Eu não ando. Descobriu-se que sou um caso perdido. O júri já se pronunciou, o veredicto foi proclamado, o acusado foi enforcado até morrer hoje mesmo de manhã.

Bem, bem! Seja como quiser: é da sua conta, e ao fazer, falar e escrever como você faz, você assume as próprias responsabilidades. Você pode repudiar o trabalho da minha vida “em geral”. Você pode me desqualificar (dizendo: trapaceiro […], vago, não-histórico, não interessado na verdade [sic] e assim por diante e diante!) Você pode continuar a fazer o seu trabalho de “detetive” nos Estados Unidos, na Holanda, na Finlândia e em todos os lugares e me desqualificar como o mais perigoso dos hereges. Por que não? talvez o Senhor lhe tenha dito para proceder assim.

Mas por que e com qual propósito você deseja levar essa conversa adiante? O herege já foi queimado e sepultado. Por que cargas d’água você vai gastar seu tempo (e o tempo dele!) com mais palavrório entre eu e ele? Caro senhor, você que vocês dois estão se sentindo mais próximos dos “velhos modernistas” e dos católicos romanos do que de mim e de homens como eu. Como quiser! Mas por que então não tentar a efetividade da sua “apologética” em alguns exercícios com esses “velhos modernistas” ou com esses católicos romanos – dos quais você vai encontrar muitos aqui na Suíça e em toda parte? Por que vocês vão se incomodar ainda mais com o homem na Basileia, a quem vocês arrasaram de maneira tão esplêndida e completa?

Regozije, Sr. Schaeffer (e todos vocês que se autodenominam “fundamentalistas” no mundo todo!) Regozijem e vão acreditar nas suas “lógicas” (como no artigo 4 de seu credo!) e em vocês mesmos como as únicas pessoas que verdadeiramente são “crentes na bíblia”! Gritem o mais alto que puderem! Mas, permitam-me, orem para ficar sozinhos. “Conversas” são possíveis entre pessoas de mente aberta […]. O seu artigo e a sua resenha de seu amigo Buswell revelam o fato de que vocês decidiram fechar as janelas. Não sei como lidar com um homem que vem para ver e para falar comigo na qualidade de um inspetor-detetive ou com o comportamento de um missionário que vai converter um ateu. Não, obrigado!

Sinceramente [sic]

Desculpe-me meu idioma ruim. Não estou acostumado a escrever no seu idioma.

Envio uma cópia desta carta ao Rev. Buswell.

Caro sr. Buswell!

Li a sua resenha junto com o artigo do Sr. Schaeffer. Cada palavra na minha letra se refere também ao sr. Lamento, mas está longe do meu controle evitar!

Atenciosamente,

Karl Barth.

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Fotografia da carta original de Barth a Schaeffer

 

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