Eleger o menor de dois males é uma exigência ética?

Traduzi um texto interessante, de um pesquisador estadunidense, sobre as próximas eleições para presidência nos E.U.A. Interessante porque levanta um problema sobre o qual muita gente no Brasil deve estar pensando, neste ano conturbado em que além das eleições municipais previstas em calendário, ainda há a possibilidade de novas eleições gerais antes do prazo previsto. Ou não, se a marmelada toda se mantiver como está. Mas o problema permanece, visto que o cenário para 2018 não traz opções muito melhores.
É preciso lembrar, também, que o contexto do bi-partidarismo nos E.U.A. torna a dualidade um fato como no Brasil não há. Aqui, o pluripartidarismo pode até confundir os eleitores, mas não há a necessidade de os eleitores ficarem restritos a apenas 2 candidatos majoritários, com um terceiro praticamente insignificante correndo por fora. Com as eleições em dois turnos, não é raro ver situações em que a disputa pelo segundo lugar é acirrada- é só no segundo turno, quando então há apenas dois candidatos, que os eleitores enfrentam o dilema de votar em uma de duas alternativas ou simplesmente não votar, o que aqui significa ou justificar a ausência, ou anular ou votar em branco. Nos E.U.A., é possível simplesmente não se registrar para ser um eleitor, pois o voto não é obrigatório. No nosso contexto, portanto, mesmo em situações em que um candidato assume a liderança das intenções de voto e garante presença no segundo turno, a disputa entre mais de duas alternativas eleitorais ultrapassa o dualismo que domina os E.U.A. – um terceiro candidato, ou um quarto candidato, podem surpreender, como já se viu.

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Contudo, nos últimos anos, também as disputas eleitorais brasileiras têm-se tornado cada vez mais dualistas e dicotômicas, mesmo que os partidos antagônicos – PT e PSDB – não representem projetos essencialmente diferentes de nação. Para ganhar as eleições, o PT deu uma notória guinada à direita e, em nome da governabilidade, aliou-se aos tradicionais partidos de direita brasileiros, representantes de concepções e práticas historicamente rejeitadas pelo outrora maior partido de esquerda da América do Sul. No entanto, o recém golpe palaciano dado contra a presidenta Dilma, mascarado de processo jurídico, pôs em questão o problema do mal menor: a alternativa eleitoral do PT seria um mal necessário, porém menor diante da imensa catástrofe que se mostra um governo do PMDB (outro partido que, outrora, já foi oposição ao golpe militar e que atualmente, como o PT também fez, reativa forças e projetos da ditadura). A confusão só aumenta quando lembramos que o PMDB foi fortalecido e alimentado pela política coalisionista e conciliatória praticada convictamente pelo próprio PT, algo que os petistas, hoje, não gostam de lembrar ou preferem minimizar, embora alguns de seus representantes mais destacados já dêem claros sinais de ter abandonado a narrativa do golpe em nome de alianças eleitoreiras.

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Esse é um ponto geralmente levantado também nos E.U.A.: apesar de diferirem firmemente em certos pontos, como em políticas públicas, p.ex., Republicanos e Democratas não questionam os fundamentos da ordem política liberal ou econômica capitalista. Neste ano, as candidaturas de Bernie Sanders e Donald Trump colocaram tumultuaram esse consenso bi-partidário há décadas estabelecido. Daí a premência da questão: com Sanders fora do páreo, será que votar em Hillary Clinton significa de fato um mal menor?

Em que pesem as diferenças entre Brasil e E.U.A., vale a pena pensar sobre o assunto. Faz sentido pensar em mal menor? E há até mesmo quem questione a necessidade do voto: por que não superar ou até mesmo abolir o voto? Pois foi o que a ditadura militar fez, aboliu eleições diretas. Agora, há quem defenda a volta da ditadura, diante dos impasses e dificuldades das democracias representativas! Longe de mim defender tal ignorância histórica. Mas é necessário pensar, sim, as dificuldades da dicotomia instaurada pelo modelo eleitoral burguês e não reduzir o âmbito da ação política ao voto que ratifica escolhas já feitas por interesses econômicos, sem com isso deslegitimar o voto como instrumento de construção da antiga e ainda frágil democracia.

Cordiais saudações e boa leitura.

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É o “menor de dois males” uma escolha ética para eleitores?

Travis N. Rieder

Em: <https://theconversation.com/is-the-lesser-of-two-evils-an-ethical-choice-for-voters-63738> Acesso 12/10/2016.

A cada ciclo eleitoral, há cidadãos que não gostam de nenhuma das opções dos candidatos indicados pelos dois maiores partidos políticos.

E então, um debate bem conhecido começa: o voto para um terceiro partido uma posição legítima – ou uma ingenuidade digressiva?

Neste ano, a discordância partidária inflou os números dos cidadãos insatisfeitos e o debate é ainda mais barulhento do que o costumeiro.

Donald Trump e Hilary Clinton são impopulares como nunca antes alguém foi. Na esquerda, há uma forte pressão para votar em Hillary Clinton para evitar os genuínos e imensos perigos que muitos pensam virão de uma presidência de Donald Trump. Essa pressão é mais forte nos estados que estão relativamente mais elevados na escala descrita por Nate Silver como “índice de poder de voto”, como Nevada ou Florida. Mas esses argumentos também estão gerando uma insolente resposta negativa, já que há eleitores respondendo “Não votarei por medo”.

Como um filósofo moralista, estou particularmente interessado na questão se podemos ser obrigados a votar em favor de alguém que não gostamos. Vamos examinar os argumentos.

O dilema do terceiro partido

Faça de conta por um momento que você é um eleitor indeciso que concorda com as seguintes quatro declargoodbaduglyações:

1.Uma presidência de Donald Trump será desastrosa.

2.Uma presidência de Hillary Clinton será melhor.

3.Um candidato de um terceiro partido seria ainda melhor.

4.Nenhum candidato de um terceiro partido tem uma chance real de se tornar presidente.

Meu ponto aqui não é defender essas afirmações, já que não interessa se eu acredito nelas. O que interessa aqui é que há pessoas que as aceitam, e elas estão tentando decidir se realmente deveriam – se são moralmente obrigadas – a votar em Hillary.

Embora muitos desses eleitores provavelmente apoiam Bernie Sanders e têm restrições quanto a Hillary por diversas razões, o dilema vale também para muitos que estão à direita.

Trump dividiu o Partido Republicano, e muitos eleitores conservadores – ou mesmo líderes conservadores – têm problemas em apoiar o candidato indicado. É bem possível que essas pessoas também concordem com as declarações elencadas.

A objeção de integridade

A rejeição feroz da ideia de que uma pessoa deveria votar em alguém que ela pensa ser inaceitável não só é compreensível, como penso que está ligada a algo profundamente importante. Recomenda-se aos eleitores que deveriam votar de modo a minimizar o mal, o que soa como um mandamento moral. Mas esses eleitores também têm uma crença moral conflituosa – eles não deveria apoiar um candidato que pensam ser corrupto. Eles são colocados na posição de escolher um princípio moral externo em vez de um princípio moral interno.

Uma das coisas os apoiadores do Partido Verde dizem é que você não deve votar no menor de dois males – afinal, o menor de dois males ainda é um mal. Ao invés disso, você deve votar no melhor candidato.

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Uma maneira de pensar sobre o voto no terceiro partido é que essa é uma forma de objeção conscienciosa. Esse tipo de voto, como se abster de votar, permite ao eleitor evitar agir de um jeito que pensa ser errado ou repugnante. Podemos entender o voto dessa pessoa num terceiro partido como um compromisso com não deixar a maldade do mundo forçá-la a violar seus princípios.

A questão identificada aqui não é nova. Filósofos defendem há muito tempo que embora as consequências das ações de uma pessoa sejam moralmente relevantes, elas raramente ou nunca significam uma exigência para agir de um jeito que seja incoerente com os compromissos que cada um firmemente estabelece consigo mesmo. Um filósofo britânico, Bernard Williams, notoriamente defendeu que se somos forçados a abandonar nossos ideais toda vez que o mundo conspirar para tornar a opção de segui-los algo menos que ótimo, isso nos roubaria nossa integridade. Essa ideia é bastante atraente.

A resposta da auto-complacência
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Williams parece certo que não somos sempre obrigados a violar nossos princípios ou compromissos para promover o bem maior. Mas essa ideia certamente tem limites.

Pois, conforme frequentemente dizem os críticos de Williams: quando as consequências da ação ou da inação de alguém ficam muito ruins, seguir com elas em nome de manter as mãos limpas começa a parecer auto-complacente. Com efeito, até o próprio Williams admitiu que às vezes pode ser necessário você violar os seus princípios em nome do bem maior.

Uma lição a ser tirada da concepção de Williams é a seguinte: focar na nossa “integridade” é o que há de mais justificável quando a ação que nos é cobrada viola profundamente nossos maiores comprometimentos na vida e o custo de não agir é relativamente baixo.

Se, por exemplo, um estilo de vida vegano fosse central para a minha identidade e eu me encontrasse numa situação em que me abster de comer carne feriria os sentimentos de meu anfitrião, é plausível que me seja permitido recusar a comida respeitosamente. No entanto, se ou os custos de recusar a comida fossem muito mais altos – por exemplo, se eu fosse um embaixador da paz na casa de um anfitrião de um governo estrangeiro com pele fina e um dedo no botão da bomba atômica – ou se eu estivesse apenas testando por brincadeira a ideia do veganismo, então as minhas preferências não teria a mesma função justificatória.

Para aqueles que concordam com as declarações 1 a 4, é possível que tanto os custos de não votar em Hillary Clinton sejam muito altos quanto votar “no melhor candidato” não seja realmente um compromisso muito profundo.

Sobre o primeiro ponto: se uma presidência de Trump fosse tão ruim quanto a afirmação 1 diz, então não votar no candidato que pode pará-lo é contribuir para o que provavelmente será um mal moral enorme. Embora seja verdade que cada um de nós tem apenas um voto para dar, ao fazê-lo estamos participando de uma ação coletiva com consequências morais sérias, o que torna nossas ações moralmente sérias.

 

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Sobre o segundo ponto: embora votar num candidato de quem não gostamos possa parecer desagradável, meu palpite é que a maioria de nós não sustenta realmente o ideal de votar no melhor candidato como um compromisso central e direcionador. Antes, pensamos que votar é algo que fazemos, mas não algo que está profundamente ligado a quem somos. Então, votar de uma maneira que “parece desagradável” não parece estar no mesmo nível de algo que sabota a nossa integridade.

Portanto, aqueles que estão sofrendo para decidir se votam em Clinton por medo de Trump tocam num ponto real. Sua angústia é que uma ameaça de consequências ruins pode tirar as bases de sua liberdade de escolher como quiserem. Mas seria auto-complacente, defendo, alegar que sua integridade está na reta. Se você acredita que Trump é um desastre moral, então você pode muito bem ser obrigado a votar em Clinton – mesmo que isso signifique sujar um pouco as mãos.

 

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