A juventude contra o espelho dos canalhas

Há uns dias, o general francês Paul Aussaresses reapareceu das trevas e uma declaração dele pulou como saci na minha frente (tal como transcrita na Folha de São Paulo): “Eu vou atravessar uma porta, e diante dessa porta tem um espelho, vou olhar para esse espelho e não quero ver um canalha.” Paul Aussaresses foi um dos generais franceses a cargo da tortura dos prisioneiros na guerra contra a independência da Argélia. Posteriormente, ainda deu treinamento a militares da América do Sul, a convite de John Kennedy, nos EUA, inclusive brasileiros. Posteriormente, também ensinou táticas militares e de tortura no Brasil, em Manaus, no Centro de Instrução de Guerra na Selva (Aussaresses era amigo pessoal de João Batista Figueiredo). 

Esse espelho também reaparece numa declaração da ex-secretária de Goebbels, Brunhilde Pomsel. Ela está viva, com incríveis 105 anos e mais incrível vivacidade e lucidez ainda e é tema de um recente documentário que ainda não chegou às telas brasileiras. Diz ela o seguinte, segundo uma reportagem de The Guardian:
Ora, se ela apenas datilografava mesmo, teria motivos como Aussaresses para sentir culpa? Ao menos por ser pessoa de máxima confiança para o intolerável? Ela mesma diz que não era só isso, também foi responsável por mascarar estatísticas e esconder dados comprometedores. Seria isso tudo? Difícil saber.
Das falas de Brunhilde Pomsel, uma das mais significativas é a seguinte:

“Essas pessoas hoje em dia que dizem que teriam lutado contra os nazis – creio que elas dizem isso sinceramente, mas, acredite, a maioria delas não teria lutado.”
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Isso é absolutamente revelador, menos do caráter da velha senhora, muito mais do nosso! O depoimento de uma pessoa que viveu no coração das trevas e está ainda viva e lúcida para contar suas memórias já basta, por si só, para atestar a sobrevivência do ideário nazista em nossa época. Muita gente pensa que esse ideário é coisa do passado, mas Brunhilde Pomsel é ela mesma a prova de que essa é uma perigosa ilusão. E o ponto crucial ela mesma indica: o Nazismo foi como “uma espécie de feitiço” sobre a Alemanha. “Talvez eu possa aceitar as acusações de nunca ter me interessado por política, mas a verdade é que o idealismo da juventude poderia facilmente te fazer ganhar um pescoço quebrado.”
E  de fato: nem o nazismo, com toda a propaganda de Goebbels, conseguiu domesticar a juventude completamente. Pelo livro de Jon Savage, A Criação da Juventude, podemos saber que a juventude hitlerista não se tornou hegemônica pela resistência de outros jovens que se recusavam a se identificar com a normalidade imposta. Boa parte da astúcia de Goebbels com a propaganda nazista esteve na criação de uma imagem de juventude oposta às democracias liberais, envelhecidas e esgotadas após a 1ª Guerra Mundial. Com o fracasso da social-democracia da República de Weimar, a maioria absoluta da juventude alemã sequer tinha tido qualquer experiência de democracia, o que favoreceu fortemente o choque de gerações. Uma juventude militarizada, treinada para administrar um império em expansão, e que seria massacrada nas trincheiras da Guerra imediatamente depois da subida de Hitler ao poder, jamais chegaria plenamente à vida adulta. O projeto nazista, como ficou muito claro bem cedo, nunca foi um projeto para a juventude e, talvez por isso mesmo, nunca conseguiu domar ou direcionar como desejavam seus líderes todo o potencial de vida, violência e insatisfação que a juventude contemporânea traz consigo.
Esse ponto é importante. Se hoje a insatisfação juvenil ainda causa temor a políticos populistas e oportunistas (à direita ou à esquerda), não são poucas e menos sofisticadas as tentativas de transformar os rebeldes e radicais em bons cordeirinhos de um rebanho obediente. Por mais energia e inovação estejam contidas na cultura pop contemporânea – o rap e o funk das periferias, os saraus, os pancadões, a Internet etc. – essa mesma cultura inevitavelmente vem encharcada de conformismo consumista e puro, cego e chão materialismo. Essa é a realidade da juventude na sua arrasadora maioria, o predomínio da visão-de-mundo da classe média burguesa, centrada no consumo como via de satisfação pessoal e imediata.
Mas, que o mundo vai de mal a pior proclama-se desde o início dos tempos, dizia já Immanuel Kant, talvez o mais velho dos filósofos da era moderna. Essa é a crença bíblica, retomada ad nauseam: o mundo começou no paraíso para depois degenerar por ação humana. Muito mais nova e criticada é a crença contrária: o mundo teria originado mal, para depois melhorar continuamente. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, diz o filósofo.
Essa é a ideia do documentário Teenage, baseado no livro de Savage (EUA/Alemanha, dir. Matt Wolf, 2013). Por mais que as tendências regressivas da sociedade de consumo não deixem abortar a cadela do fascismo, sempre haverá jovens inconformados e indispostos a se ajustarem à normalidade social. Mas, e hoje, que parte da juventude alimenta essa potência antifascista e renovadora?
Talvez seja impossível dizer, sem ainda o devido distanciamento histórico. Mas, numa entrevista, Jon Savage lembra o seguinte:
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E entre as partes mais legais, da hora mesmo, nóis, valeu! miugrau! do livro e do documentário estão nas histórias das jovens e garotas adolescentes que, de uma forma ou de outra, ousaram contestar não apenas seus papéis sociais, suas identidades recebidas, mas também a própria ordem social e política como um todo. Pode parecer difícil dissociar as duas coisas, mas de fato é muito mais difícil associá-las, como bem mostra a dinâmica da indignação tipicamente burguesa.

A libertação das mulheres da esfera estritamente privada está diretamente ligada à ocupação de postos de trabalho que ficaram vagos porque a maioria dos homens estava no morrendo nos fronts. Ainda que os ambientes e as práticas profissionais fossem extremamente masculinizadas e opressoras, o dinheiro em forma de salários próprios proporcionou uma libertação imensa.  Esse fato revolucionou completamente o mundo, transtornando velhas cabeças e costumes. Como diz Savage, “O que realmente chocava a América era o comportamento desenfreado das meninas adolescentes.” E ele conta inúmeras histórias de como esse choque aconteceu na Europa e nos EUA.

Uma dessas histórias é a de Sophie Scholl, participante da organização estudantil da Rosa Branca, também escolhida para ser personagem de outro filme, infelizmente ainda indisponível no Brasil (Sophie Scholl, Os últimos dias – alô, distribuidoras, acordem por favor!). Existisse hoje, o grupo da Rosa Branca (die Weiße Rose) se autodenominaria um coletivo de resistência pacífica, o que de fato foi. Começando as atividades em Munique, em 1942, seus membros distribuíram panfletos, grafitaram muros e espalharam ideias anti-nazistas até serem presos e assassinados pela Gestapo em 1943.
Outra história, que poderia parecer fútil perto da resistência política de Sophie Scholl, é a de Brenda Dean Paul, atriz britânica da época do cinema mudo. Brenda foi uma das mais inteligentes representantes da geração dos Bright Young People, “a cultura jovem mais visível da Grã-Bretanha na década de 1920”, exemplar do hedonismo juvenil espalhado pela Europa da época. Mas a fama de Brenda veio mais pelos escândalos causados pela sua liberalidade comportamental e sua terrível dependência das drogas. A Wikipedia diz que ela foi uma das jovens mais faladas de Londres de sua época. Mas Brenda, mesmo com todo hedonismo e toda consequente alienação que no fim tomaram conta dos Bright Young People, protagonizou conscientemente uma das mais fortes vontades juvenis: ela tomou conta da própria imagem, registrando como poucas, em sua autobiografia, o clima da época que anunciava o futuro.
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“Uma nova camaradagem de jovens surgiu, uma independência, uma igualdade, que deu origem a um novo código de condutas sociais.” Essas palavras de Brenda Dean Paul baseiam a afirmação de Matt Wolff, diretor do documentário Teenage, baseado no livro de Jon Savage: “O teenager foi o resultado e a invenção das garotas adolescentes“.
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Hoje, quando os jovens são censurados pelos adultos pela sua insistência nas selfies, quando as instituições e os movimentos sociais ainda barram ou menosprezam coletivos de jovens feministas, continuam vivas as histórias dessas garotas que se fortaleceram e ajudaram a fortalecer outras e outros jovens porque suas atitudes representam mais do que uma rebeldia sem causa, mas, antes, a necessária resistência contra as tendências regressivas da cultura, um espontâneo inconformismo que pode se transformar na efetiva força propulsora da vida. E esse valor simbólico é o mais importante, mais do que as normas da vida adulta em cada época conseguem entender.
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