500 anos de Utopia

Utopia

An non haec iniqua est & ingrata respublica, quae generosis ut uocant & aurificibus, & id genus reliquis, aut ociosis, aut tantum adulatoribus, & inanium uoluptatum artificibus, tanta munera prodigit. agricolis contra, carbonarijs, mediastinis, aurigis & fabris, sine quibus nulla omnino Respublica esset, nihil benigne prospicit. Sed eorum florentis aetatis abusa laboribus, annis tandem ac morbo graues, omnium rerum indigos, tot uigiliarum immemor, tot ac tantorum oblita beneficiorum miserrima morte repensat ingratissima. Quid quod ex diurno pauperum demenso diuites cotidie aliquid, non modo priuata fraude, sed publicis etiam legibus abradunt, ita quod ante uidebatur iniustum, optime de Republica meritis pessimam referre gratiam, hoc isti deprauatum etiam fecerunt, tum prouulgata lege iustitiam. Itaque omnes has quae hodie usquam florent Respublicas animo intuenti ac uersanti mihi, nihil sic me amet deus, occurrit aliud quam quaedam conspiratio diuitum, de suis commodis Reipublicae nomine, tituloque tractantium. comminiscunturque & excogitant omnes modos atque artes quibus, quae malis artibus ipsi congesserunt, ea primum ut absque perdendi metu retineant, post hoc ut pauperum omnium opera, ac laboribus quam minimo sibi redimant, eisque abutantur. Haec machinamenta, ubi semel diuites publico nomine hoc est etiam pauperum, decreuerunt obseruari, iam leges fiunt.

 

É possível falar em justiça ou gratidão numa república que recompensa tão profusamente os chamados nobres, os ourives e outros do mesmo tipo, uma gente que, quando não é totalmente improdutiva, dedica-se apenas à produção de artigos de luxo ou ao ramos dos prazeres e das diversões? É possível falar em justiça quando essa mesma república não demonstra uma adequada generosidade para com os camponeses, os carvoeiros, os operários, os carroceiros ou os carpinteiros, sem os quais a república não teria condições de existir? E o máximo de ingratidão cai sobre esses homens quando já estão velhos, doentes e na mais hedionda miséria. Depois de ter se aproveitado deles quando estavam nos melhores anos de suas vidas, a sociedade se esquece das incontáveis vigílias em que consumiram suas forças a seu serviço, e os recompensa pelos trabalhos importantíssimos que realizaram permitindo que morram na miséria e indigência. Mas tudo isso é ainda pior: os salários de fome que os ricos pagam aos pobres são diariamente reduzidos por eles mesmos, não só através dos mais diferentes tipos de desonestidade, como também através da extorsão praticada em nome da lei. Antigamente, já era injustiça suficiente recompensar aquele que mais contribuiu par ao bem-estar da sociedade com uma inacreditável ninharia; hoje, ainda por cima, fazem com que essa injustiça seja legalmente sancionada como justiça. Na verdade, quando reflito sobre qualquer das repúblicas que prosperam no mundo atual, nelas não vejo – e tomo Deus por testemunha – nada além de uma conspiração dos ricos para fomentar os seus próprios interesses em nome da república e sob seu título. Inventam todos os tipos de truques e artimanhas, primeiro para assegurar, sem medo de perdê-la, a posse de todos os bens que adquiriram por meios escusos, e, em segundo lugar, para explorar os pobres e comprar o seu trabalho pelo mais baixo preço possível. Uma vez que esses homens ricos decidiram que as suas falcatruas devem ser oficialmente reconhecidas pela república – da qual fazem parte os ricos e pobres – elas acabam por adquirir a força da lei.

Utopia. Thomas Morus. 1516.

 

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Um pensamento sobre “500 anos de Utopia

  1. “Cansados daquele delírio hermenêutico, os trabalhadores repudiaram as autoridades de Macondo e subiram com suas queixas aos tribunais supremos. Foi ali onde os ilusionistas do direito demostraram que as reclamações careciam de toda validade […]”. Gabriel Garcia Marquez, “Cem Anos de Solidão”

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