Sobre o natural lugar de fala da mulher brasileira

Ontem dei uma aula sobre análise semiótica do discurso, usando como base um antigo texto de Jakobson que já foi mais lido no país, “Linguística e poética“, de 1960. O objeto de estudo foi o discurso da Primeira Dama Marcela Temer. A análise a que chegamos foi mais ou menos a seguinte (explicando só um pouco os termos técnicos pra não chatear o público).
Vamos entender o discurso não apenas como o que ela fala, mas como o todo que articula formal e intencionalmente imagens, gestos e palavras. Isso é importante porque permite relacionar elementos que estão ali com elementos que vêm de fora, como o contexto histórico e cultural brasileiros (respectivamente, os elementos diacrônicos e os sincrônicos, como Jakobson diz; ou, então, num outro vocabulário, o simultâneo e o linear). Relacionando esses elementos de alguma maneira, uma função é realizada, quer dizer, o discurso comunica alguma coisa a alguém (nós, no caso). Em outras palavras, o uso pragmático, o uso efetivo da linguagem, coordena a sintaxe – a organização dos signos – e a semântica – o domínio dos significados – de uma certa maneira, tendo em vista produzir certo efeito em quem o discurso almeja atingir. 
Como não podia deixar de ser, os elementos auto-referenciais são determinantes no discurso da Primeira Dama: as cores, a vestimenta à Disney, o penteado, tudo faz voltar a ela como a imagem da pureza, da simplicidade e da suavidade. É o que Jakobson chama de função poética da mensagem, quer dizer, os elementos estéticos ressaltam a própria linguagem, a mensagem ela mesma é enfatizada pela integração de forma e função: a equivalência dos elementos ali presentes – cores, gestos, palavras etc. – torna-se constitutiva da própria organização lógica da mensagem, quer dizer, no fim das contas, do próprio conteúdo (não há diferença entre forma e conteúdo; o conteúdo é resultado da forma, se preferirem dizer assim). Os gestos e a postura corporal, bem como a entonação da voz, mais propriamente caracterizáveis como elementos metalinguísticos, que reforçam o acordo entre enunciadora e destinatários sobre a própria linguagem usada, reforçam essa impressão.
No caso, a própria Primeira-Dama é a mensagem fundamental, muito mais importante do que sua fala, a qual torna-se mero apêndice de sua imagem. Dessa auto-referência, a referência ao contexto externo decorre, quer dizer, é dessa imagem que extraímos outros elementos constitutivos da mensagem – o co-texto, isto é, o que está junto, colado ao texto – não necessariamente explicitados nas palavras: a posição oficial da mulher no país. Confirma essa hipótese a declaração do próprio Michel Temer: “A presença da Marcela como embaixadora visa exatamente a incentivar as senhoras mulheres do país“. Note-se que o enquadramento a coloca no centro do nome do país, bem como antes ela estava na cadeira central entre os outros. Há outra (única) mulher além dela ali presente, mas quase não é percebida. Ela fica de fora da foto oficial, só é vista no vídeo, e sua imagem se funde à dos homens pela vestimenta.
O próprio conteúdo do discurso é dado por essa forma, a começar pela ideia de que o instinto impele as mulheres ao cuidado com as crianças. Não é natural que as mulheres sejam assim? Daí que sua atividade não possa ser outra que maternal. Não é esse papel central e decisivo num país? Que tipo de besta-fera seria quem discordasse da necessidade de dar amor e carinho às nossas crianças? Quem discorda de que as crianças gostam de ser embaladas com as mais tenras cantigas antes de dormir? Até a ciência o confirma… O desenrolar do discurso produz o efeito de equivalência entre as palavras escolhidas para serem pronunciadas por Marcela Temer: “crianças”, “cuidado”, “instinto”, “sentimento”, “desenvolvimento”, “gestação”, “causas sociais”, “colaborar”, “primeiros anos de vida” etc. E a escolha das equivalências constitui a própria organização lógica do discurso. Note-se ainda que a Primeira-Dama entra em cena logo após o término da fala anterior, com a seguinte afirmação: é preciso fazer desta pátria uma mãe-gentil. Mesmo que ela não queira? Mas, então: quem não quereria?
Como artifício, tudo isso desmonta quando a espontaneidade genuína aparece: ao saudar os jornalistas, a Primeira-Dama deixa escapar um retroflexo.  Aí, quando a linguagem chega aos destinatários (pela sua função conativa, quer dizer, de contato, proximidade entre quem fala e quem ouve), fica impossível não estabelecer uma identidade à sua enunciadora: sua origem caipira-paulista contrasta com as exaustivamente perfeccionadas flexões posteriores, as quais na verdade a distanciam da maioria da população brasileira. Se isso não revela a que ponto chegou o treino, ao menos evidencia a encenação, muito bem pensada. O hábito, então, não se tornou uma genuína segunda natureza, mas uma máscara sobreposta à primeira, a qual teima em romper a segunda, denunciando-a. Será que, aqui, a verdadeira essência está plenamente adequada no lugar natural a ela atribuído pelo discurso? Existe uma essência além do discurso? Existe, sem dúvidas, um lugar oficial e ele já está ocupado. É dele que Marcela Temer fala.
A distância entre o vivido e o intencionado mais uma vez revela o trabalho das mediações. Oferecidas como se naturais fossem – como um produto, pronto e acabado para o consumo – dificultam a construção de outras. Daí a necessidade de soltar-lhes os nós.
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