QUEM É O “NATIVO”/ QUEM É O “ESTRANGEIRO ILEGAL”?

O texto a seguir é o registro de uma conversa entre um artista performático mexicano e um nativista radical. Seu autor é um dos participantes da conversa, o artista Guillermo Gómez-Peña, que o escreveu originalmente em 2002, para a turnê Red America, do grupo La Pocha NostraO texto acabou de ser reescrito neste ano de 2017, para a era Trump, como no final ficará claro ao leitor.

Traduzo-o aqui porque, afinal de contas, a ignorância, o ódio e o medo não são privilégios nacionais. Infelizmente.

 

 

GomezPena

 

O contexto: Durante um debate que tive em 2002 com um autodenominado “nativista radical”, numa estação de rádio no Arizona, quem nos recebia fez a seguinte pergunta: “Quem é o nativo? Quem é o estrangeiro ilegal?” Nunca imaginei que figuras marginais como esse feroz minute man* um dia chegariam a ocupar o escritório do presidente dos E.U.A.

Vamos chamar esse nativista de Joe. Ele me pediu para lhe dar uma razão forte, por que os EUA não deveriam fechar completamente suas fronteiras com o México.

Minha primeira resposta foi sarcástica: porque eu acabei de trocar meu green card pelo gold card. Ele não entendeu. Minha segunda resposta foi a seguinte:

“Para mim, o ‘problema’ não é a imigração. … é a histeria com a imigração, uma forma de racismo coletivo. A imigração é o subproduto da globalização e, como tal, é irreversível. Atualmente, um terço da humanidade vive fora de suas terras de origem e longe de sua cultura e línguas originais.” Seu rosto não demonstrava expressão alguma.

“E por que isso? – ele disse. Justamente porque os SEUS países de origem estão fodidos e VOCÊS querem vir e viver no primeiro mundo. Por que precisamos deixar vocês entrarem? Não somos uma agência humanitária internacional. Nós estamos saturados nessa merda!”

Eu respondi: “Você quer dizer que a estátua da liberdade teve um colapso nervoso? Duvido. Acho que a razão porque mexicanos como eu estão vivendo nos E.U.A., a SUA América, é porque as nações/estados estão ultrapassados e disfuncionais. E as estruturas legais às quais pertencem não conseguem responder às novas complexidades da época.”

Sua réplica à minha resposta foi: “Não entendo uma palavra do que você está dizendo. O fato é que vocês, estrangeiros, estão aqui ilegalmente. Você sabe quantos ‘estrangeiros’ estão aqui, ILEGALMENTE, no meu país?”

Respirei fundo e respondi no mesmo mono-tom-Chicano-cool que uso quando começo ficar pê-da-vida:

Bem, tudo depende de a quem você pergunta: um sociólogo anglo vai dizer 11 milhões. Um ativista chicano vai responder que nenhum. Mas se você perguntar a um ancião indígena, americano nativo, ele poderia dizer 330 milhões, toda a população dos EUA, excluindo a população indígenas, e tecnicamente ele está certo.

Ele não entendeu o meu argumento. A inteligência não era exatamente seu forte. Ele repetiu sua afirmação num volume muito mais alto: “o fato é que vocês estrangeiros estão aqui ilegalmente!”

“Ilegalmente?… Para mim, a imigração não é uma questão legal, mas humanista e ética. Nenhum ser humano é “ilegal”, ponto. Todos os seres humanos, com ou sem documentos, pertencem à espécie humana, a nossa espécie, e se ELES precisam de nossa ajuda, somos obrigados a dá-la. Isso se chama ser humano – um conceito que você pode achar bem “estranho” e “estrangeiro” em si. Nesse contexto, a nacionalidade se torna secundária. A dor deles é a nossa e esse é seu destino.”

“Que (bip) é essa que você quer dizer?” ele perguntou agressivamente.

“Assim como eu me tornei um imigrante um dia, você talvez venha a se tornar um no futuro. Todos somos imigrantes em potencial, carnais.”

Ele me olhou com nojo e depois de uma longa pausa, disse: “Não me venha com essa merda de ‘carnal’. Vocês estão determinados a destruir a nossa democracia e só porque nós damos a vocês a liberdade e os tickets de alimentação para fazer isso. O que NÓS fizemos a VOCÊS? Por que vocês nos odeiam tanto?”

Nesse momento, percebi que não havia muito espaço para a negociação intelectual com ele. Seus argumentos eram rigorosamente emocionais. Ele estava lutando pela sua vida, seu país interior e seu senso de pertencimento a um mundo imaginário, uma América Branca pré-contato que nunca existiu. Ele era o alienígena real, perdido num planeta estrangeiro multiracial e multicultural onde a cultura de fronteira e a hibridez são a norma e o Spanglish é a lingua franca.

Eu me compadeci dele e tentei, mais uma vez, estabelecer um diálogo sério com ele:

“Você sabe, senhor, em resposta à sua questão ‘o que VOCÊS fizeram para NÓS’, por favor, escute-me com cuidado:

A imigração para os E.U.A. é o resultado direto do comportamento econômico, político e militar dos E.U.A. para com outros países: estamos aqui exatamente porque vocês estiveram lá antes. A maioria dos imigrantes, eu inclusive, estamos inconscientemente buscando pela raiz de nosso desespero. E penso que a encontrei exatamente agora, situada na sua amnésia histórica e no seu racismo primitivo. É um prazer conhecê-lo.”

Levantei-me e lhe estendi minha mão direita. Ele a rejeitou.

Ele visivelmente tinha medo do meu sotaque, da minha pele marrom, das minhas tatuagens, meu delineador de olhos, meus brincos. Nos olhos dele, eu era um cripto-mamífero: um gigantesco chihuaha raivoso transformando-se em Godzila e destransformando-se, usando um chapéu de mariachi.

Ele saiu do estúdio da rádio ainda mais convencido de que “nós” éramos a raiz de todas as moléstias sociais e econômicas dos E.U.A. dele, um país em que nunca estive.

 

Naquela noite, escrevi no meu diário: “Haverá uma saída dessa desse impasse? Será melhor no futuro?” Não tinha ideia de que, 14 anos mais tarde, um homem chamado Donald Trump de fato ajudaria a darmos um salto para uma resposta.

*Nota: Minuteman era a denominação dada aos participantes de milícias independentes na época da Independência dos E.U.A., conhecidos por sua alegada capacidade de se organizarem para a batalha “num minuto”. Essas milícias eram formadas por fazendeiros e homens comuns das cidades.

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